Isabel Cristina McEvilly: Uma visão para o Brasil (Portuguese)

Por Isabel Cristina McEvilly:

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Depois de ler o documento da apresentação do Scott Rains, fiquei com esperanças de que realmente as coisas possam melhorar no Brasil,mas na minha opinião as leis deveriam ser mudadas e respeitadas antes mesmo de se começar a construir ou reconstruir acessos para portadores de deficiência.Leis que antes de serem aprovadas ao léu deveriam ser melhor examinadas.

Se voce não leu o que o Scott Rains disse na reunião dos lideres com deficiencias no estado de Ceara organizador pela ONG Arte Pensamento em 2012 você deveria aqui: [ The Legacy of Copa 2014 and the Rio 2016 Olympics for Brazil. ]

Bom, vou falar um pouco da minha história para que vocês entendam a que me refiro.



Comecei a desenvolver minha deficiência quando tinha 4 anos. Tive três diferentes diagnósticos: Poliomielite, Charcot Marie Tooth e um terceiro diagnóstico que já não me lembro mais o nome,mas a maior parte de minha vida ouvi dizer que havia tido polio.

Aos 13 anos minha mãe faleceu decorrente de um câncer de mama( breast cancer).Meu pai, hoje também falecido, tinha mais preocupações com bebidas e mulheres do que com as duas filhas que ele tinha.Acredito que somente quem tem um pai alcoólatra sabe o quanto é difícil, mas não quero me aprofundar nesta parte.

Eu e minha irmã sempre fomos muito amigas, isso era uma coisa que minha mãe estava sempre nos falando, que éramos mais do que melhores amigas, éramos irmãs.Quando minha mãe faleceu, minha irmã e eu nos tornamos ainda mais unidas.

Minha avó materna tentou trazer-nos para cá ( Estados Unidos), mas ela acabou morrendo dois anos depois da morte de minha mãe.Um motorista bêbado causou o acidente que tirou a vida de minha avó e também de uma de minhas tias.

Quando tinha aproximadamente 17 anos, uma tia foi ao Brasil e tentou trazer-nos, mas o consulado negou e somente uma de nós poderia vir. Como estava em tratamento para tentar uma cirurgia, fiquei e experimentei novamente a dor da perda, pois ja não teria mais

Isabel by Aicha

 minha irmã perto de mim.Não era fácil ouvir as pessoas dizerem que eu era diferente, eu adorava dançar e não via minha deficiência, mas depois de tanto me apontarem a deficiência como algo que deveria ter vergonha, parei de dançar.

Por mudar de uma casa para outra, minha irmã e eu ja havíamos perdido alguns anos de escola e com os acontecimentos e minha rebeldia juvenil para chamar a atenção das pessoas, eu parei de estudar e fiz isso por muitos anos.Trabalhava com meu pai no bar que ele e minha mãe haviam conseguido com muito esforço.

Com o passar dos anos eu queria voltar para escola, mas tinha vergonha, pois estava "velha" para isso.

Meu pai, acabou vendendo o bar e quando foi fazer uma nova compra, ele levou um golpe. Perdeu todo o dinheiro que tinhamos.

Precisava agora arrumar um emprego e por mais que tentasse não conseguia, pois não tinha experiência ou mesmo estudos.

Coloquei minha vergonha de lado e fui fazer o supletivo,mas não era fácil,principalmente porque a escola tinha escadas e não havia corrimão.Fui pedir para a diretora instalar e o que ouvi foi que a escola não tinha verbas e que eu poderia usar a escada do meio que era apenas para os professores.

Nessa época eu pagava ônibus e dava meu lugar para idosos e gestantes, ficava em filas, não usava nenhum dos meus direitos.

Foi quando um grupo de estudantes da USP começaram a ir na escola, não me lembro o que levaram eles até lá, mas lembro que estava conversando com um dos rapazes do grupo e ele me disse que admirava todas as pessoas que voltavam a estudar, cada um tinha um motivo diferente por ter abandonado os estudos, mas retornar era sinômino de coragem e que no meu caso ele estava realmente admirado por causa da deficiência. Nesse mesmo momento soube que um dos professores me admirava muito pelo mesmo motivo. Voltar a estudar depois de anos exigia coragem, mas ter ainda que passar pelos obstáculos da deficiência, eu era realmente um exemplo.

Depois de ouvir minha vida inteira de que eu não era capaz, de que não conseguiria, que não era perfeita, que eu era bonita e o problema era só os meus pés.Aquelas palavras me deram uma força que havia esquecido possuí- la.Coragem que me levou a ir de classe em classe e pedir para que os alunos assinassem o meu abaixo- assinado, requerindo corrimãos para as duas escadas laterais, para o meu benefício e de todos os outros portadores de deficiência física, mas também para aqueles que tivessem o pé quebrado e os mais velhos que também estavam ali para estudar.Não foi preciso mandar o abaixo-assinado para Secretaria da Educacão, a escola instalou os corrimãos.

Terminara o colegial, mas ninguém me dava emprego, " não tinha experiência".

Fui então para secretaria do trabalho, lá fui encaminhada para o departamento responsável para portadores de deficiência.Conheci a Thais, que é fonoaudióloga e ela me explicou mais sobre os direitos das pessoas portadoras de deficiência e que não deveira me sentir mal por usá- las.

Fui ao banco com uma de minhas priminhas e resolvi seguir o conselho da Thais, estava na fila e escutei um homem gritando que as pessoas não têm vergonha na cara, gente nova com saúde...Veio a gerente e perguntou para uma senhora quantos anos ela tinha, a pobre mulher mostrou o RG, a que estava na minha frente disse que estava de 3 meses 

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de gestacão e ela então me perguntou o porquê de eu estar na fila e eu lhe disse. Chegou a minha vez de ir ao caixa, a moça não olhou pra mim, se virou e disse ao seu colega ao lado: - Olha que falta de vergonha! Cheguei ao caixa e ela me disse: - Você sabe que esta fila é para idosos e gestantes! E eu perguntei a ela se não era também para deficientes.Ela sem graça disse que sim, então perdi a minha paciência, alterei minha voz e lhe disse: - Se voce tivesse olhado pra mim, teria visto que ando diferente de você,mas com certeza se eu fosse tentar namorar alguém na sua família voce iria ver a minha deficiência antes mesmo de me ver.

Já no onibus, teve um motorista que ficou esperando eu descer do ônibus e começar a caminhar para parar de me olhar com ar de suspeita. Um outro que assim que viu que eu ia entrar pela porta da frente comecou a dirigir o onibus e foi o cobrador que gritou: -Para o ônibus, a moca é aleijada. Um senhor entrou no ônibus e começou a me insultar, pois estava no lugar que era dele. Então aí veio a lei: certo número de empregados tem que ter certo número de deficientes,meio maluco isso, mas fui lá "tirar proveito". " Mas você precisa de alguma adaptacão? Sabe o que é, a vaga foi preenchida esta manhã."

Bom, aí vem mais uma vez Deus me dizer que sou forte e sou capaz. Tivemos uma reunião, a Thais, a diretora, outros deficientes que também estavam procurando empregos (uns com diplomas de faculdade e experiência) e eu é claro. No dia seguinte a Thais me pediu pra ir até lá. Começamos a conversar e ela me disse que havia uma vaga para recepcionista, não pagavam muito, mas seria um começo e que eu me daria bem lá, pois teria contato com crianças( o que eu amo) e seria apenas para começar. Então ela me disse que não sabia o que estava acontecendo comigo, pois a diretora que estava na reunião conosco lhe disse que eu não falava muito, mas meus olhos sim falam muito,mas o que mais a havia impressionado foi que apesar de não falar muito, quando abria minha boca falava de forma correta,o que os outros que estavam ali com diploma não o fizeram. Sai de lá e fui para minha entrevista, claro que consegui o emprego. Alguém tinha acabado de me dizer que eu era boa, pelo menos no meu português.

Nesse emprego, era a recepcionista, a amiga e a conselheira de todos. Bom, muitos de vocês conhecem esse lugar, é a Expansão. Lá conheci algumas pessoas que me indicaram outras pessoas ou lugares e quando fui ver estava envolvida com Magic Hands, CMPD e o pessoal da Saga Natacão.

Tenho muitas histórias boas da Expansão, mas uma vou contar agora.

Uma mãe veio me contar que estava triste pois a AACD havia dito que o filho não poderia mais ir para escola ,pois ele não tinha mais capacidade de aprendizado. A mãe disse a ele e o pobre menino ficou super triste, pois ele queria ir pra escola como seu irmão. Entrei em contato com alguns dos meus novos amigos e me disseram para falar para essa mãe que ela deveria ligar para associação e dizer que se eles nao aceitassem o menino, ela iria com o advogado até o tribunal de justiça e abrir uma ação contra eles. A mãe me ligou depois de alguns dias para dizer que eles ligaram para ela e disseram que foi tudo um mal entendido e o menino poderia sim frequentar a escola.

Agora já nas reunioes do CMPD tem três histórias que gostaria de contar. Essas ficaram marcadas em minha memória. Não me lembro mais o nome das pessoas, mas me lembro dos incidentes.

A primeira foi de um rapaz que é deficiente e que precisando de ajuda para descer as escadas do metrô pede ajuda aos funcionários. Quando esses chegaram perto do cadeirante,um dos funcionarios disse:

- Por que voce não se jogou? Era menos trabalho. Já a segunda também envolvendo o pessoal do metrô, foi com uma uma deficiente visual e o rapaz que a conduzia disse a ela: - Você deveria ficar era em casa. O terceiro caso foi uma pessoa que sendo deficiente visual não percebeu que a rampa já havia terminado e foi puxado por uma pessoa antes que o carro o atropelasse.

Aonde eu quero chegar com minhas histórias? Nao é apenas construir ou reconstruir estádios, hotéis, cinemas, teatros,além disso é preciso ter conhecimento do que e como estão sendo feitas essas obras. Arquitetos, engenheiros e pedreiros, antes de começarem qualquer coisa devem ouvir os deficientes , visuais, auditivos, os amputados , cadeirantes, os que usam muletas, órteses, os que tem atrites, todas as pessoas que tem algum tipo de dificuldade motora devem ser ouvidas e também os idosos. Uma das coisas mais estúpidas que eu achava era a luz de estacionamento com alerta sonoro dos prédios para avisar que os carros estão saindo, mas me diga como um deficiente visual perceberia os carros?

O Brasil precisa sim de reformas arquitetônicas urgentes,mas precisa também de educação e não estou me referindo apenas a escolar. Respeitar e aceitar as diferenças! É preciso começar já a educar os funcionários públicos, termos ônibus adaptados com motoristas e também adaptados a serem gentis, educados e prestativos. O governo dá vagas de empregos, otimo! Mas as escolas não estão adaptadas para que as crianças deficientes frequentem a mesma. A vaga de emprego está aberta, agora o governo também está dando bolsas de estudos,mas como o deficiente irá para a faculdade se nao tem ônibus adaptados?

Eu cheguei a prestar faculdades aí no Brasil e na USP.A minha pontuação foi melhor do que de uns primos meus mais novos e que haviam estudado em melhores escolas, mas

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 nenhum de nós conseguiu entrar. Depois consegui passar numa faculdade que oferecia o curso de filosofia gratuíto, ja que o de matemática eu não poderia pagar,mas não era o que eu queria.

Estavam oferecendo inscrições gratuítas na UNIP e minha colega de trabalho não queria ir, então pedi pra ela e ela foi. Chegou em casa a carta da faculdade dizendo que havia passado, chorei muito de alegria pois havia passado para o curso de Direito sem a "bolsa", mas chorei ainda mais, pois não ganhava o suficiente para pagar as mensalidades. Já havia passado o prazo de inscrição, quando comentei o acontecido com o Rui Biachi, ele me disse que se eu tivesse lhe dito a tempo ele teria me ajudado com as mensalidades e que nós deficientes precisamos de pessoas como eu.Ele realmente estava disposto a me ajudar, mas não poderia aceitar.

O que infelizmente descobri é que entre nós os deficientes , somos muito os poucos que realmente nos importamos com os problemas das pessoas. Conheci muitos deficientes ricos ou com algum poder que jamais fizeram algo em prol do próximo e sim tudo o que fizeram era para benefício próprio. Por que estou escrevendo isto? Porque não adianta dizer que tem um deficiente a frente das questões, se esse deficiente não for uma pessoa íntegra e honesta. Sendo assim deficientes e "normais" deveriam juntos mudar o Brasil para que possamos fazer bonito na Copa e nas Olimpíadas,mas principalmente no dia-a-dia.


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