Deficiente visual vai de Brasília a Paraty de bicicleta
Adauto Belli pedalou 1,6 mil km em bicicleta dupla, com o parceiro guiando.
Ciclistas fizeram trajeto da Estrada Real em 18 dias; aventura virou livro.
Adauto Belli, deficiente visual, viajou 1,6 mil km guiado por Weimar Pettengill
O convite partiu de um desconhecido. Quando o empresário Weimar
Pettengill, 37 anos, ligou para o deficiente visual Adauto Belli
chamando-o para uma viagem de bicicleta de Brasília a Paraty, se
surpreendeu com a resposta. "Partimos quando? Amanhã? Hoje não dá.
Estou ocupado", disse Adauto, 38 anos, adestrador de cães. Na bicicleta
de dois lugares (modelo conhecido como 'tandem') a dupla seguiu para
Minas Gerais e, de lá, rumo a Paraty, no Rio de Janeiro. Completaram o
trajeto em 18 dias, a maior parte feita em estrada de terra.
Adauto, deficiente visual desde o nascimento, tem apenas 35% da
visão. "A confiança ali é tudo. Eu pedalo tendo certeza de que, se for
bater, ele (Weimar, o ciclista que vai guiando) vai bater no macio, se
cair, ele vai tentar fazer com que eu me machuque menos", conta.
"Quando a gente está em uma descida no cascalho a 110 km/h, tem que ter
muita confiança. Se fosse com uma pessoa que vê perfeitamente, a viagem
não teria dado certo", afirma Weimar.
Entre as experiências registradas no trajeto, Adauto lembra das
vezes em que sua pouca visão o enganaram. "Você acaba vendo o que quer
ver. A gente ia descendo perto de um vale e eu dizia 'Nossa, é um lago
muito bonito', e o Weimar começava a rir e dizia 'que nada, isso aí é
uma favela!'", conta.
Foram pouco mais de 1,6 mil km cruzados em 18 dias, de 29 de janeiro
a 16 de fevereiro. A aventura rendeu até livro. Na última quinta-feira
(21), Weimar Pettengill lançou em Brasília o resultado de suas memórias
da viagem, entitulado 'Brasília-Paraty - Somando pernas para dividir
impressões' (editora Thesaurus). "Quero agora fazer o áudio-book, pra
que o Adauto possa 'ler' e dizer se está tudo certo", brinca o autor. A
obra também será lançada em Belo Horizonte, Rio de Janeiro e São Paulo.
Antes de partirem em cima da bicicleta, os dois eram praticamente
desconhecidos. Haviam se encontrado cinco vezes, apenas duas delas com
a bicicleta para fazer testes. Weimar já planejava pedalar o trajeto da
Estrada Real -rota histórica de povoamento e exploração do interior do
Brasil, criada no século XVII-, e decidiu incluir uma companhia no
desafio. "Lembrei da bicicleta tandem e resolvi ir com um DV
(deficiente visual) para compartilhar a experiência", conta o
empresário. Ele chegou a Adauto através de amigos do projeto 'DV na
trilha', que promove a inclusão social de cegos através de bicicletas
duplas em Brasília.
Adauto sempre gostou de praticar esportes, e não pensa na
deficiência como um obstáculo. Pelo contrário. "Muitas vezes é até uma
vantagem, porque eu tenho que ficar mais concentrado", diz. Ele pratica
o ciclismo desde 2007, mas seu esporte mesmo é a corrida. "Depois que
eu o arrastei pra esse desafio, ele já arrumou o próximo, agora
correndo. Vamos fazer a travessia dos Andes no final do ano", afirma
Weimar.
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