A TRISTE DÁDIVA
Andando pelas ruas
do grande Maputo nota-se claramente que as vias de acesso foram
projectadas somente para pessoas que não possuem nenhum tipo de
deficiência física, principalmente ao que se refere a pessoas que usam
cadeiras de rodas.
Locais especiais para estacionar veículos conduzidos
por/para PPD´s ou projectados para este grupo social também são
raros, bem como táxis e autocarros especialmente equipados para tal
fim. Nunca se viu, no país inteiro, único machimbombo especialmente
dotado de porta que baixe uma rampa para um deficiente possa entrar no
semicolectivo.
As dificuldades crescem ainda mais para uma PPD
visual que passa por muitas vergonhas. Porém, somente agora, coisas
simples, como adaptação das entradas de alguns ministérios estão sendo
feitas. Mas o cego que entre num elevador não vai conseguir premir os
botões.
Esta observação, ainda que simples, permite descortinar
que a vida dos deficientes é cercada de inúmeras contrariedades que não
se resumem ao acesso a prédios públicos ou outras instituições, mas
também ao livre acesso às ruas da cidade.
João Magaia,
presidente do Fórum das Associações Moçambicanas de Deficientes, FAMOD,
reage quando o acompanhamos numa das suas difíceis viagens pela vida,
tempo e pela cidade de Maputo.
Às nossas perguntas, Magaia
responde com várias e diferentes expressões faciais: ora com um olhar
de espanto, quando se depara com um obstáculo, seguida de um olhar
carismático quando é digno da rara bondade do próximo. E, quando
ninguém lhe presta auxílio, um olhar de surpresa, pela falta de
humanismo dos egocêntricos. Quando todo o esforço for em vão, uma vez
cercado por inúmeros degraus e labirintos que não lhes proporcionam
alternativas de saída, aquele olhar de um desamparado.
UM LABIRINTO CHAMADO CAMINHO PARA O TRABALHO
Desemprego,
competitividade, descriminação: o mercado de trabalho está renhido. E
para o profissional conseguir - e garantir - o seu posto precisa estar
bem qualificado e sempre actualizado. Se isso é exigido a pessoas
normais, a situação é ainda preocupante quando o candidato a emprego é
uma PPD que sofra ciclicamente de problemas visuais, auditivos, mentais
ou orgânicas.
João Magaia (re)conta a amarga experiência que
vive(u): à semelhança de Jonas, ele concorreu para uma vaga anunciada
num jornal. Porém, quando se aproximou com as suas velhas muletas o
guarda barrou-lhe a porta que dá acesso à secretaria da empresa. "Eu
tinha as qualificações exigidas no anúncio", garante Magaia, que não
compreende que esse tipo de descriminação deva ocorrer também nas
empresas que desejaria que fossem modelos na sociedade em considerar e
respeitar a prestações previstas no artigo 77 da Lei de Trabalho de
8/98.
Magaia acredita que a descriminação a que foi vítima não é
única forma para o grupo social que faz parte. Sabe também que
empregadores ouviram a existência da supracitada lei que os obriga a
promover o emprego em postos ou tarefas compatíveis de cidadãos cuja
capacidade de trabalho foi alterada em consequência de acidente, doença
prolongada, ou por outras razões. O presidente do FAMOD lamenta, porém,
que não exista ainda nenhuma fiscalização - nesta área - o que
permitiria penalizar com pesadas multas em dinheiro aos empregadores
que não (re)conhecem a supracitada lei nem a capacidade de um
deficiente. E acredita que isso iria moralizar a sociedade.
CARIDADE NÃO, MAS COMPETITIVIDADE SIM!
O
grande problema de acesso ao mercado de trabalho é o preconceito e a
visão distorcida sobre as PPD´s. Estudo demonstram que em qualquer
actividade este grupo social pode trabalhar. "Basta dar-lhes as
condições necessárias e acreditar nas suas potencialidades", declaram
os psicólogos, para quem um deficiente não é o pior nem o melhor que as
outras pessoas.
Isso também pensa o líder da FAMOD, ao explicar
que o que as instituições e os projectos de formação e encaminhamento
profissional de deficientes não querem, de jeito nenhum, é emprego por
caridade ou pena.
Magaia diz haver por aí iniciativas de
empresas querendo abrir um sector só para deficientes para os donos
poderem aparecer em manchetes de jornais e revistas ou abrir
telejornais como bons samaritanos. E há quem fatigado de tanto ser
angustiado pelo estigma vá mais longe e questione: "será que essas
empresas sabem, por exemplo, que a PPD produz melhor quando está entre
pessoas normais?"
Cientistas confirmam que existem vários casos
comprovados de pessoas portadoras de deficiência que melhoraram seu
desempenho na escola e em casa - e na sociedade em geral - depois que
começaram a trabalhar ao lado de pessoas ditas normais.
OS RECEIOS DE TRABALHAR AO LADO DE UM DEFICIENTE
Que
a situação de emprego no país está difícil para todos já não pode ser
manchete de um jornal: com tanta gente desempregada é mais fácil para
uma empresa contratar o melhor candidato diante de muitas opções.
Agora, está claro que na hora de contratar uma PPD, a empresa manifesta
alguns receios, como o momento da demissão e homologação frente a um
juiz. "Como uma multinacional encararia a possibilidade de responder à
Justiça na hora de demitir um deficiente?", questiona um jurista
sondado sobre a matéria, que não quis se identificar por imperativo de
exclusividade contratual com a empresa onde é consultor.
Segundo
Shareef Malundah, consultor na área de deficiência e HIV/SIDA, o que
tem dificultado a entrada de deficientes é a descrença na capacidade
profissional destas pessoas, barreiras arquitectónicas das empresas,
que quase nunca estão preparadas para receber estas pessoas. A falta de
esclarecimento quanto ao diagnóstico das doenças vem completar a bola
da neve.
O que acaba também interferindo muito na orientação
profissional dessas pessoas, de acordo com Malundah, é que o mercado de
trabalho está cada vez exigindo graus médios e superiores completos". A
isso acrescente-se sólidos conhecimentos de Inglês, Francês, Russo e
Grego. Se tem tudo, ainda não se deve sorrir: "então só faltará ser bom
programador de computador", lamenta Malundah, sublinhando que "a
maioria das PPD´s em Moçambique não consegue concluir o primeiro grau
do Sistema Nacional de Educação".
O
mercado de trabalho fica mais fechado para PPD´s que sofrem de doenças
orgânicas como os hemofílicos, por exemplo - como a Ana e o Jonas -,
que têm limitações de membros superiores ou inferiores. "É claro que as
pessoas portadoras de deficiências precisam de alguns cuidados
especiais, e isso todo o empregador faz questão de saber", afirma
Malundah, para quem, porém, ninguém já procurou saber da excepcional
capacidade de organização que este grupo social tem no trabalho, somado
à sua criatividade ilimitada.
IGNORADOS NOS TRANSPORTES
Os
semicolectivos (vulgos "chapa", que agora se sabe que não são
empresas) e os TPM que interligam os bairros do grande Maputo não
estão cumprindo com as normas que obrigam que parte das frotas sejam
dotadas de elevadores e cadeiras reservadas para acomodar PPDs, idosos
e crianças.
A denúncia, que estoira do FAMOD - com Magaia a
servir-lhes de porta-voz - indica que actualmente nenhum dos dois
sistemas oferece o almejado serviço. Ou melhor: " quando entramos neles
não só não há cadeiras reservadas, como também os passageiros (ditos
normais) não se levantam para nos ceder os lugares". Consequência:
"temos de andar, longas distâncias apoiados nas nossas muletas",
lamenta Magaia.
O presidente do FAMOD diz que o sofrimento deste
grupo social não esgota aqui: "os autocarros, quer os "chapa" como os
TPM não param quando nos vêem". Magaia diz saber que eles fazem isso
porque não querem nos aturar nas eventuais demoras nas manobras que
temos que fazer para entrar neles, uma vez que não estão adaptados para
nos facilitar a nossa já difícil condição de ser deficiente". E mais:
"os motoristas e cobradores sabem que os passageiros normais não querem
viajar connosco por acharem que somos incómodos".
Magaia afirma,
por exemplo, que para minorar o sofrimento, a instituição que dirige
tentou negociar um acordo tipo "gently-man agreement" com a empresa
TPM. Nesse combinaram que a TPM passaria a reservar uma pequena parte
dos seus lugares não só para PDD´s como também para idosos e crianças.
Debalde: "nem para nós, nem para velhos e muito menos para crianças:
ninguém quer implementá-lo".
A GÉNESE DO PROBLEMA
Reportagens
publicadas recentemente em vários jornais dão conta, na sua
globalidade, que a deficiência em Moçambique está vinculada ao elevado
nível de pobreza. Não há, no país, um banco de dados percentuais de
fácil acesso, mas sabe-se que a deficiência tem como origem sequelas de
doenças, problemas na gestação, acidentes de trabalho e de (a)viação e
guerras que já produziram quase dois milhões de afectados.
Shareef
Malundah - quem já coordenou um projecto de prevenção, diagnóstico e
cirurgias às doenças visuais em Sofala sob auspícios da Light for
World, uma ONG cristã austríaca - afirma que estudos apresentados por
oftalmologistas revelam que, se todas as pessoas pudessem, por exemplo,
fazer exames de glaucoma a cada ano a deficiência visual seria reduzida
para metade. O mesmo vale se fossem feitas consultas pré-natais e
acompanhamentos correctos de partos, testes de pezinho para identificar
futuras paralisias cerebrais e outros problemas poderiam ser evitados.
A VISÃO E ESFORÇO DO GOVERNO
Ainda
que concordasse com João Magaia - presidente do FAMOD -, o director
nacional da Acção Social, Miguel Maússe, revelou recentemente estarem
em curso esforços multissectoriais visando responder às necessidades
especiais dos deficientes. Resultado disso é que, de acordo com Maússe,
actualmente está a elevar-se o número de crianças com várias
deficiências a frequentarem nas escolas especialmente projectadas para
este grupo social, o que ajuda a levantar a sua auto-estima.
É
no combate contra todas as formas de violência que o Governo está
igualmente a implementar projectos sociais, quer culturais, como
desportivos. Maússe reconhece as dificuldades que o país enfrenta, mas
entende que mais do que provisão de bem e infra-estruturas, o momento é
de se investir cada vez mais para mudar as mentalidades
discriminatórias quer nas famílias, comunidades e na sociedade em
geral. Para ele, isso iliba a Imprensa, que diz também não apresentas
modelos alternativos de acesso de informação e comunicação para as
PPD´s.
A visão e desafio do Governo, segundo Maússe, é continuar
a incluir os líderes das organizações das pessoas portadoras de
deficiências na mesa onde se definem e se desenham políticas e
projectos para este grupo social.
O sentimento que fica
subjacente é que em mais uma Semana Campanha Africana para Pessoas
Portadoras de Deficiência que arranca amanhã, pode ser uma oportunidade
para as PPD's.
* Anselmo Cachuada - Colaboração
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Em mais uma semana da campanha africana, a pessoa portadora de
deficiência, PPD, volta a exigir tratamento igual em todas as esferas
sociais. É luta de há décadas, cujos frutos continuam a vir a
conta-gotas. O Governo diz que vai continuar a promover acções para
este grupo social, mas recomenda que maior ênfase deve ser dada na
mudança de mentalidades discriminatórias.
Helena está debaixo da chuva. Ela espera por um "chapa-100" que a leve
do Khongolote para a "Zona Vede" ou Benfica. Se chegar lá vai tomar
outro que a leve para baixa da cidade de Maputo. Ela implora para o
"chapa" parar. O motorista abranda a marcha, mas mal o cobrador nota
que a viajante não tem pernas e por isso está apoiada em duas muletas
de ferro, fecha a porta e ordena a marcha. O motorista cumpre a ordem
do comandante cobrador. Dois minutos depois o autocarro, de 16 pessoas
como lotação máxima, pára: mais duas, três, talvez dez apertam-se e
entram. Aliás, cerca de vinte e cinco pessoas viajam enroscadas como
macarau.
Jonas
lê um anúncio de uma vaga num jornal para o mesmo (jornal). Não
obstante reunir todos os requisitos exigidos, não chega ao
entrevistador porque o guarda lhe barra a entrada que dá acesso à
secretaria. Devido ao empurrão dado pelo segurança, Jonas quase que
cai, uma vez que anda apoiado em duas velhas muletas de madeira.
Contrariamente
à Ana, Jonas teve sorte porque apanhou autocarro dos Transportes
Públicos de Maputo (TPM). Ana não teve essa sorte porque lá onde
(sobre)vive esses autocarros ainda são uma novidade e desejo velho como
o tempo, visto que também faltam estradas.
Mas Jonas não teve
tanta sorte assim: de Marracuene a "Anjo-Voador", também na baixa da
cidade, teve de se apoiar nas suas pernas de madeira. Ninguém se dignou
a cedê-lo uma cadeira para se sentar. Como não pôde ter acesso à
secretaria do jornal, tem de lutar para regressar, nas mesmas condições
para a longínqua vila de Marracuene.
Manuela, cerca de 30 anos
de idade, está acompanhada do seu sobrinho de 10 anos, que a conduz de
loja em loja para pedir esmola na cidade de Maputo. Já tentou um
emprego, mas sem sucesso, não obstante ter frequentado muitos cursos
promovidos na sua associação, onde é membro. De Hulene - onde mora -
para "baixa" - onde pede favores a vários indianos ainda bons - Manuela
e seu sobrinho-guia andam a pé porque ou não têm com que pagar ou,
ainda que tenham, ninguém lhes "liga".
Ana, Jonas e Manuela:
três nomes fictícios, três histórias verdadeiras no grande Maputo.
Essas pessoas portadoras de deficiências PPD´s, que muitas vezes pedem
clemência para sobrevivência, sabem o que é pobreza absoluta
acompanhada de desprezo total à sua pessoa: vêm à cidade porque não têm
nada em casa. Se é que têm casa! Fazem isso porque para eles é o
melhor: andar, batalhar pela vida fora, incomodar a quem quer que seja.
Nem sabem como isso se diz, mas é o melhor que sabem fazer.
Não
são as únicas a fazê-lo no grande Maputo e noutras cidades do país, mas
é o grupo que mais dá nas vistas. Seminários, campanhas, conferências e
"workshops" sobre PPD´s enchem arquivos e ouvidos de todos, ante a
conivência de quase todos. Todos falam e reflectem. Acusam e apontam
soluções. Às vezes, quando o prejuízo não lhe cai em cima até acham
graça e riem-se delas.


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