Ethel Rosenfeld : Entrevista da "História do Movimento Político das Pessoas com Deficiência no Brasil"

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Ethel Rosenfeld

 

Ethel Rosenfeld nasceu em 1945 e é natural do Rio de Janeiro. Em 1959, Ethel ficou cega em decorrência de um acidente cirúrgico na retirada de um tumor líquido. Terminou o primeiro grau no Instituto Benjamim Constant.

 

Posteriormente, fez o Supletivo e concluiu o curso de Letras (inglês/português) na Faculdade Santa Úrsula. Em 1971, conheceu Eurico Carvalho da Cunha e iniciou sua militância no Centro Operacional Pedro de Alcântara (COPA), um movimento de pessoas cegas para pessoas cegas. Em 1973, tornou-se a primeira professora cega a ingressar no magistério público do Estado do Rio de Janeiro. No mesmo ano passou a atuar na Associação Brasileira de Educadores de Deficientes Visuais (ABEDEV). Na década de 1980, participou dos grupos que elaboraram os artigos sobre as questões das pessoas com deficiência para as Constituições Federal, Estadual e Lei Orgânica do Município do Rio de Janeiro. Na década de 1990, foi convidada para atuar no CVI Rio.

 

Nesse período, também organizou diversos cursos e eventos de DOSVOX pelo Brasil. Em 1992 participou da Avaliação da Década do Ano Internacional, realizada em Vancouver, Canadá. Em 1993, integrou o grupo que elaborou a Política Nacional de Educação Especial. Em 1997 foi à Guide Dog Foundation for the Blind para receber seu primeiro cão-guia, Gem. De volta ao Rio, passou a experimentar diversas dificuldades para se locomover com seu cão-guia e iniciou uma luta que contribuiu para a elaboração de leis e do decreto que regulamentou a lei federal que reconhece o cão-guia no Brasil.

 

Em 2004, ingressou na política partidária e concorreu a uma vaga de vereadora no Rio de Janeiro. Apesar de não ter sido eleita, recebeu 4.836 votos e foi a mais votada entre os candidatos com deficiência.

 

TEMAS A perda da visão e os estudos O ingresso no magistério público do Estado do Rio de Janeiro Atuação no Centro Operacional Pedro de Alcântara (COPA) Atuação na Associação Brasileira de Educadores de Deficientes Visuais (ABEDEV) Do movimento dos cegos para o Movimento das Pessoas com Deficiência Os conflitos entre os cegos e dos cegos com as outras áreas da deficiência O processo da Constituinte O Ano Internacional das Pessoas Deficientes e a avaliação da Década do Ano Internacional Os Projetos DOSVOX, Motrix e Fênix A Política Nacional de Educação Especial e as especificidades da educação de cegos A candidatura para vereadora e a experiência na política partidária A experiência na Guide Dog Foundation for the Blind, a chegada do Gem e a luta pelo direito ao cão-guia A novela América As conquistas do movimento

 

FICHA TÉCNICA DA ENTREVISTA ENTREVISTADORES: Deivison Gonçalves Amaral e Paulo de Tarso Linhares

 

LOCAL: Rio de Janeiro-RJ

 

DATA: 19 e 20 de janeiro de 2009. DURAÇÃO: Sete horas e trinta minutos

 

Entrevistador: Qual é o seu nome completo, sua idade e seu local de nascimento?

 

Ethel Rosenfeld: Meu nome é Ethel Rosenfeld, nasci em 19 de outubro de 1945, aqui no Rio de Janeiro. Em julho de 1959, comecei a sentir as dores de cabeça, que eram um sinal do meu problema. Entre junho e julho, interrompi os estudos: o tumor apareceu em meados de junho e fui operada em julho; entre o dia 1º e 5 de julho eu me percebi cega. Posso dizer que a melhor coisa da minha vida, depois de ter ficado cega, foi ter passado pelo Instituto Benjamin Constant. Até hoje, como professora, no momento aposentada, assino embaixo, vou falar de pessoas cegas, mas você pode dizer que é a mesma coisa para a pessoa surda ou para pessoa com outras deficiências, até mesmo pessoas com doenças: todas as pessoas devem conviver com seus iguais, com seus pares. É ali, nessa convivência, que a gente aprende. Eu sempre digo que aprendi a ser cega convivendo com meus amigos cegos, com meus professores cegos. Ali, aprendi muito.

 

Saindo do Benjamin, eu queria cursar o Normal. Fui informada de que para o Instituto de Educação não podiam fazer concurso pessoas com nenhum tipo de deficiência. Naquela época não sabia, não tinha nenhum jeito de brigar. Foi a primeira e única vez em que eu não briguei pelos meus direitos. Então, eu quis fazer o 2º grau para seguir para a faculdade. Fui fazer faculdade na Santa Úrsula.

 

Entrevistador: Como você percebia a pessoa cega antes e depois da sua cegueira?

 

Ethel Rosenfeld: Minha concepção de pessoa cega era a do cara morador de rua, do pedinte, era sempre do pobre, miserável, malvestido, sem cultura. Era o que eu tinha como ideia de cego. Depois que comecei a frequentar o Benjamin Constant, vi que havia gente formada, professores, alunos que estudavam, que faziam música e um monte de coisas. E comecei a ver que eu mesma era cega e tinha uma vida igual: continuei indo a todos os lugares. Quando fiz 17 anos, ainda aluna do Instituto, subindo a escadaria do Instituto, comecei a perceber e a sentir uma coisa dentro de mim: "Que bacana, todo mundo aqui é muito bom e tal, mas eles não têm a sorte que eu tenho. Eles não têm o pai e a mãe que eu tenho, eles não têm os irmãos que eu tenho". Então, comecei a agradecer a Deus ali, naquela escadaria. E naquela escada parei, me concentrei e fiz um juramento: "Eu vou dedicar minha vida em prol das pessoas cegas". E assim começou o meu movimento no movimento.

 

Entrevistador: Desde cedo você dedicou sua vida profissional à docência, e a educação de cegos foi o foco da sua atuação.

 

Ethel Rosenfeld: Descobri, não me lembro como, que existia, no antigo Estado da Guanabara, uma Seção de Educação Especial, num prédio na esquina da rua Uruguaiana, que já foi derrubado. Num dos andares do prédio funcionava a tal Seção, que hoje é o Instituto Helena Antipoff. A coordenadora da área de deficiência visual era a professora Marialva Feijó Frazão. Fui conversar com a professora Marialva e com a professora Teresinha. Eu disse: "Quero trabalhar. Sou formada em inglês/português e sou especializada em educação especial para pessoas cegas. Interessa para vocês?" De cara, Marialva disse: "Sim. Vamos ter uma experiência no nosso grupo de uma pessoa que já enxergou e não enxerga, o que, provavelmente, vai ajudar as professoras que enxergam e que não vivem a cegueira". Terezinha Machado também concordou, e ambas encaminharam um pedido à Secretaria de Educação. Esse processo rodou seis meses pela secretaria até chegar às mãos da professora Heloísa Fabião, chefe do departamento de 1º grau. Ela me deu uma declaração dizendo que a atividade que eu iria desempenhar como professora era compatível com minha cegueira. E o governador assinou, de fato.

 

No dia 3 de outubro de 1973 - ou foi dia 1º -, tomei posse. Fui a primeira professora cega a ingressar no magistério público do Estado do Rio de Janeiro. Naquela época, a criança cega estudava na escola comum e o professor como eu fazia um trabalho de itinerância. Cada professora tinha meia dúzia de alunos sob sua responsabilidade e ela frequentava, algumas vezes por mês, aquela escola que tinha aquela criança cega, para dar apoio à criança e ao professor regular. O professor itinerante não tinha uma sala X para trabalhar; era um serviço itinerante. Então, Marialva, achando que aquilo ia complicar minha vida no início - e ia mesmo, porque eu não tinha expediente nenhum -, criou um Núcleo de Atendimento Especial, o primeiro no Estado do Rio de Janeiro, em uma instituição asilar chamada Sodalício da Sacra Família. Em 1973, entrei, em outubro, para trabalhar. Em dezembro, recebi um telegrama da Escola de Serviço Público do Estado da Guanabara (ESPEG), que era a escola que preparava as provas dos professores que iam concursar, e fui chamada. Era para dizer que, como eu estava sendo muito bem-sucedida, eles resolveram abrir, pela primeira vez, um concurso público no Estado do Rio para todos, inclusive para professores cegos. Eles me pediram que os ajudasse a divulgar, entre os professores cegos que gostariam de concursar, que eles iam abrir concurso. Eu avisei no Benjamin Constant. A notícia se espalhou, e 18 professores cegos fizeram o concurso, inclusive eu: 12 passaram, e eu fiquei entre os 12.

 

Entrevistador: A gente tem um registro de sua atuação no Centro Operacional Pedro de Alcântara, o COPA.

 

Ethel Rosenfeld: Em 1971, eu já estava formada e não tinha o que fazer. Eu sabia que existia um professor cego no Rio de Janeiro que dava aulas de inglês em um curso comum. Achei o telefone desse professor e liguei para ele. Ele se chama Eurico Carvalho da Cunha e a esposa, já falecida, se chamava Clélia. Eu fui à casa deles e os conheci Ele me deu meu primeiro emprego, no finalzinho do ano de 1971, em novembro. Na casa do Eurico se reunia, todo sábado, um grupo de cegos intelectualizados - a nata na área da cultura, vamos dizer assim, que era o tal do COPA. Clélia e Eurico me convidaram para frequentar o grupo. E o COPA era um movimento só de pessoas cegas para pessoas cegas. O que a gente conseguiu na época? Eles queriam ter uma biblioteca falada dentro do COPA. Eu era radioamadora, e junto dos meus colegas radioamadores fizemos uma noite de doação de fitas. Recebi um monte de fitas cassete que levamos para o COPA. Eu arranjava os leitores voluntários para gravar os livros e fiquei responsável pela biblioteca falada do COPA.

 

Depois, começamos a nos interessar pela colocação profissional dessas pessoas. Naquela época, estavam começando os cursos de grande porte no Brasil, ministrados por dois professores cegos, em São Paulo. Alguns colegas nossos já haviam feito o curso, mas não tinham onde trabalhar. Conseguimos vaga para quatro pessoas cegas trabalharem no IBGE. Eu nunca me esqueço, um deles era um grande amigo meu, querido, do Benjamin Constant, amigo de escola - Maurício Zeni. Ele é um grande líder do movimento. Ele, junto com o pessoal do CVI-Rio, começou o movimento. Há pessoas do COPA ainda vivas, pessoas ligadas ao movimento: o professor Hercen e o professor Antônio Carlos Hildebrant, irmãos cegos; o próprio Eurico Carvalho da Cunha, que hoje é casado com a Marluce Dias da Silva; e outros. Tenho o primeiro folheto que a gente fez, escrito, "Relacionamento com as pessoas cegas", para o qual nós tivemos o apoio da Fundação Getúlio Vargas e da Souza Cruz, através de uma voluntária nossa, a Moira. Quando comecei a trabalhar, passei a não ter tanto tempo para o COPA. E no trabalho, logo de cara, a professora Marialva me convidou para entrar na Associação Brasileira de Educadores de Deficientes Visuais (ABEDEV). Marialva era presidente fundadora da ABEDEV, foi criada no Rio de Janeiro e teve como primeira sede o Instituto Oscar Clark - Instituto Municipal de Medicina Física e Reabilitação.

 

Logo depois da minha entrada, o professor Adilson Ventura, de Florianópolis, se tornou presidente da ABEDEV. Ele foi presidente por dois mandatos. Eu e o Adilson tínhamos nos conhecido em 1978, quando foi fundada a escola Anne Sullivan para criança surdocega, em São Paulo. Durante esse tempo, fiquei como delegada da ABEDEV. Quando o Adilson saiu da presidência, entrou o professor Amilton Garai, que me convidou para assumir a vice-presidência pela região Sudeste, tendo cumprido dois mandatos (oito anos). Em 1992, Rosangela Bieler, presidente do CVI, e Lilia Pinto Martins, coordenadora, me convidaram para participar de um curso que iam dar para as quatro áreas principais da deficiência: cegueira, surdez, mental e física. O CVI estava organizando um curso cujo nome era "Prontidão para o Trabalho". Lilia me perguntou se eu queria trabalhar nesse curso, na área das pessoas cegas. Essa foi a minha primeira participação com pessoas de outras áreas de deficiência, não só da área dos cegos.

 

Entrevistador: Vamos aproveitar para falar da sua participação no Ano Internacional das Pessoas Deficientes.

 

Ethel Rosenfeld: Entre 1981 e 1988, nasceu no Brasil, não sei como, esse movimento que a gente depois batizou de Movimento Nacional de Defesa dos Direitos das Pessoas Portadoras de Deficiência.

 

A gente estava se preparando para escrever os artigos da Constituição Federal. Ali eu conheci pessoas de outras áreas de deficiência e pessoas com doenças que conseguiram garantir seus direitos de participarem desse momento, a preparação para a Constituinte. Depois de alguns anos, já com a CORDE, Cândida Carvalheira, pelas pessoas ostomizadas, e o Cesinha, César Fernandes, um amor de pessoa, já falecido, pelas pessoas com doença renal, conseguiram transformar o conceito de doença para deficiência. Eles não paravam de brigar e brigar até que fossem reconhecidos os direitos deles. Porque a doença acaba constituindo para eles limitações grandes, como a deficiência, principalmente com relação ao horário de trabalho.

 

Entrevistador: Nesse período de 1981 até 1988, sua participação era ligada à ABEDEV?

 

Ethel Rosenfeld: Sim, eu era sempre representante da ABEDEV. Sempre pela minha área. Esses encontros aconteciam em alguns lugares do Brasil. Na época, já tinha sido criada a Coordenadoria de Belo Horizonte, a primeira do Brasil. Luiz Geraldo de Matos, uma pessoa cega, foi seu primeiro coordenador. Eu não estou me lembrando bem das atividades do Ano Internacional, mas, com certeza, participei. Eu me lembro de que o Banco do Brasil lançou uma régua de plástico, toda vazada, com marcação em Braille, para preenchimento do cheque. Era uma máscara em plástico recortada, mas só batia com cheque do Banco do Brasil. Eu participei de muitos momentos , não sei por que eu não registrei

 

Entrevistador: Como era a relação entre esses tipos de deficiências? Porque foi entre 1981 e 1988 que surgiram as grandes organizações como a FEBEC, o Morphan, a FENEIS.

 

Ethel Rosenfeld: Na década de 1980, aconteceram várias coisas: em 1981, foi o Ano Internacional. Houve, também, a criação de algumas instituições nacionais: FEBEC, ONEDEF, FENEIS, CORDE, e da nova Constituição Federal.

 

Entrevistador: Como é que se dava essa relação entre as deficiências?

 

 

Ethel Rosenfeld: Fora os cegos, eu não sei bem. Conheço mais o nosso lado, porém sempre escutei meus "presidentes" comentando que não é legal as pessoas cegas se misturarem com as pessoas com deficiência física... Segundo eles, as pessoas com deficiência física, em sua maioria, se tornam deficientes por acidente e já estão praticamente incluídas na vida, trabalhando ou estudando. Assim, elas têm mais condições de se inserir no mercado de trabalho do que os cegos.

 

Teoricamente, são pessoas com um nível cultural e educacional melhor do que a maioria dos cegos. As pessoas cegas, na sua maioria, nascem cegas ainda por falta de higiene, de vitaminas, etc., e por sua origem, por sua pobreza. Nosso País ainda não conseguiu resolver questões básicas como a de insalubridade. Por isso, havia todo esse preconceito entre cegos e deficientes físicos. Quando começamos os encontros para a Constituinte, eu me tornei uma exceção. Existem outras pessoas como eu, mas eu me destaquei logo, porque me interessei muito pelas diferentes dificuldades das outras áreas de deficiência e fiz alguns amigos. Hoje, acho que o próprio Adilson já não tem esse preconceito. Ele até foi presidente do CONADE por um bom tempo. Ele aprendeu a conviver com todas as diferenças. Ele pode não gostar de uma pessoa, mas ele não tem mais nada contra a pessoa ser assim ou assado.

 

Agora eu, particularmente, nunca consegui voltar atrás e me dedicar só às pessoas cegas. Pelo contrário, nos últimos muitos anos, tenho um olhar voltado para as questões da acessibilidade e falando de acessibilidade, não dá para só olhar numa direção, isso é automático em mim, ao mesmo tempo que estou falando de pessoas cegas, estou falando das pessoas surdas, das com deficiências físicas e das com déficit de inteligência. Desde os preparativos para a Constituição, sempre me dei muito bem com todas as pessoas, da ONEDEF, da FENEIS e de outros grupos. Apesar de serem pessoas cegas, com o pessoal da FEBEC não me entrosei, a politicagem que existia entre a FEBEC e o Conselho Brasileiro para o Bem Estar do Cego (CBBC) me incomodava e, não sei por que, eu simpatizava mais com as pessoas do CBBC.

 

Entrevistador: Teve, inclusive, a Dona Dorina envolvida.

 

Ethel Rosenfeld: A Dorina [Nowill] grande líder. O professor Edson [Ribeiro Lemos], já falecido, foi o presidente do Conselho por muitos anos. Funcionava aqui no Rio, na sede de uma instituição asilar de cegos chamada União dos Cegos do Brasil, que é no Encantado. Dona Dorina, Adilson, Edson e muitos outros tinham um sonho de juntar as sete instituições nacionais para que o Brasil houvesse uma instituição maior que representasse todas as demais. Assim nasceu a UBC, União Brasileira de Cegos. Ainda tinham um grande desejo de fundir a FEBEC com o CBBC, que nunca conseguiram, porque os dois reis não queriam perder o poder. Quem vai deixar de ser rei? Quem vai deixar de ser o presidente?

 

Agora, recentemente, com o grande movimento do Adilson, da dona Dorina e de não sei mais quem, eles fundiram; conseguiram extinguir o Conselho Brasileiro para o Bem-Estar dos Cegos e a FEBEC12 e criar a ONCE Brasil.

12 Na verdade, a ONCE Brasil é resultado da união da FEBEC com a UBC. O CBBC continua a existir.

 

Entrevistador: Você sabe dizer todas elas?

 

Ethel Rosenfeld: O Instituto Benjamin Constant (membro especial por pertencer ao governo federal), o CBBC a FEBEC, a ABEDEV, a Fundação Dorina Nowill - que tinha outro nome [Fundação para o Livro do Cego no Brasil], a Sociedade Pró-Livro Espírita no Brasil (SPLEB). Está faltando a sétima, não lembro agora, mas tenho anotada em algum lugar. Eu sei que Dona Dorina conseguiu juntar essas sete instituições e criou a UBC, com a seguinte rotina: cada vez que o Brasil tinha que ser representado no exterior, seguindo um cronograma, cada vez ia o presidente de cada instituição, obedecendo a um rodízio. Lembrei-me da sétima instituição: a Associação Brasileira de Professores de Cegos e Amblíopes (ABPCA), instalada no Benjamin Constant.

 

Entrevistador: Entre 1981 e 1988 surgiram as grandes organizações, como a Federação Brasileira de Entidades de e para Cegos (FEBEC), o Movimento de Reintegração das Pessoas Atingidas pela Hanseníase (Morphan) e a Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos (FENEIS). Como se dava essa relação entre as deficiências?

 

Ethel Rosenfeld: Todos nos dávamos muito bem. Todos queríamos as mesmas coisas, garantir os direitos das pessoas com deficiência, cada um em sua área e todos por todos. Cada vez que surgia uma instituição nova, todos aplaudíamos por mais uma vitória.

 

Entrevistador: E a Organização Nacional dos Cegos do Brasil (ONCE Brasil)?

 

Ethel Rosenfeld: Isso aconteceu no final do ano passado, foi uma grande conquista.

 

Entrevistador: E durante a Constituinte, como foi o trabalho e a articulação entre as diferentes deficiências?

 

Ethel Rosenfeld: Nós formamos um grupo até uniforme. Com o tempo, nós todos estávamos lutando e desejando a mesma coisa. Não havia muita rivalidade. O bom é que conseguimos o que tanto queríamos: que nossos artigos ficassem inseridos no todo - por exemplo, quando se falava de saúde, ali também se encontravam referências sobre nós, pessoas com deficiência, e assim em todos os itens.

 

Já quanto a Constituição Estadual, tivemos muita divergência de opiniões, muitas reuniões, porque sempre queríamos que estivéssemos inseridos nos artigos de todos e não separados, mas não conseguimos. Na Constituição Estadual, todas as garantias de direitos estão separadas em um único artigo, capítulo, não sei o termo correto. O deputado estadual Luiz Henrique Lima, que já vinha conosco desde que era vereador, acabou nos convencendo de que separados, um capítulo só para as questões das pessoas com deficiência, era melhor.

 

Entrevistador: Você chegou a participar das audiências públicas da Constituinte?

 

Ethel Rosenfeld: Sim, fui várias vezes a Brasília nessa ocasião e eu era uma das depoentes. Depois, quando vieram as Constituições Estadual e Municipal, continuamos no mesmo ritmo, só que em gabinetes menores. Na Estadual, quem nos ajudou foi o gabinete do deputado Luiz Henrique Lima e, na Municipal, foi o gabinete do Eliomar Coelho, vereador petista. Os meninos do movimento, Maurício Zeni, Hercen e Antônio Carlos, fizeram amizade com Eliomar - eram do mesmo partido - e conseguiram muita coisa com a ajuda dele.

 

Entrevistador: Essa união que ocorreu nas Constituintes, entre os movimentos das pessoas com diferentes deficiências, permaneceu depois ou foi algo restrito àquele período?

 

Ethel Rosenfeld: Eu acho que permanece no presente. Uniu-nos de certa maneira e continuamos até hoje. Eu me lembrei de Marlene Morgado, a pessoa que criou o Sólazer Clube do Excepcional. Ela também teve oportunidade de participar desses encontros; a filha dela tinha paralisia cerebral. Eu acho que esses encontros que nós tivemos, de 1986 a 1988, nos uniu. Eu acredito muito nisso. Eu sinto assim.

 

Entrevistador: O que significou o Ano Internacional das Pessoas Deficientes, em 1981?

 

Ethel Rosenfeld: Muito mais de um simples marco! O Ano Internacional foi um ano político, foi o marco de grandes mudanças, mas não promoveu tantos encontros entre as diferentes áreas de deficiências.

 

Entrevistador: E qual a importância do Ano Internacional?

 

Ethel Rosenfeld: Ele foi muito importante. Muito, porque ele fez com que as pessoas e os seus movimentos começassem a ter consciência da importância de nós falarmos por nós mesmos. Esse foi o grande ganho de 1981: nós falarmos por nós mesmos: "Nada sobre nós sem nós". Passou a dar voz ativa aos membros das organizações, às pessoas com deficiência.

 

Então, isso foi muito importante; passamos a ser respeitados como pessoas.

 

Muitas instituições nasceram por causa do Ano Internacional; ele deu esse desejo às pessoas, de cada uma ter seu grupo e falar por si própria, não aceitar mais as ordens vindas de cima para baixo. Por muitos anos, a CORDE e o CONADE tiveram como presidentes pessoas sem nenhum tipo de deficiência. E era uma revolta nossa porque a gente acha que quem tem que estar lá em cima é um de nós. Não porque sabemos mais do que ninguém, mas sabemos da nossa realidade. Havia coisas que eram feitas pela CORDE, antigamente, de que a gente participava, mas com o pé atrás.

 

Depois que Izabel Maior assumiu a CORDE, mudou. Mudou até nossa relação de aproximação com a CORDE. O CONADE também não fugiu a esse modelo, até que um dia o professor Adilson Ventura, pessoa cega, assumiu a presidência. Até então, os presidentes eram somente profissionais da área, não eram pessoas com deficiência. Isso sempre nos revoltou. Em 1992, houve um encontro mundial, em Vancouver, Canadá, para avaliar a década a partir do Ano Internacional. Eu estava recém-entrando no CVI. Éramos 25 brasileiros no Canadá. Eu não tenho como descrever o espaço físico onde se realizava o evento; posso dizer que era muito, muito grande. Importante ressaltar que tudo, em todos os lugares, era completamente acessível. Logo em seguida veio a Eco-92, aqui no Rio. Tudo no mesmo ano. E a gente conseguiu colocar questões ligadas ao movimento. Nós estávamos espalhados por toda a extensão do Aterro do Flamengo, participando de tudo o que estava rolando. Começamos a aparecer mais, a discutir acessibilidade. Eu sei que a gente foi aparecendo.

 

 Entrevistador: Eu queria voltar a outro evento da década de 1990, que é o Projeto DOSVOX.

 

Ethel Rosenfeld: Eu estou junto desde o início. O DOSVOX foi apresentado ao público, no Brasil, em 1994, pelo professor Antônio Borges, que é o criador do software. Ele apresentou ao diretor do Instituto Benjamin Constant, que era o professor Jonir Bechara. Eu não sabia do DOSVOX, eu já usava o Braillen Speak, no meu computador número um, há dois anos, desde a volta do Canadá. Eu comecei a minha informática dessa maneira.

 

Aí apareceu o DOSVOX no Brasil. Jonir sabia do meu interesse pela informática e reservou uma vaga para mim na segunda turma de DOSVOX, que aconteceu em maio de 1994. O professor Antônio Borges e Jonir criaram a primeira turma para começar a ensinar a usar o DOSVOX, que aconteceu em março ou abril desse mesmo ano, se não estou enganada. Não fui premiada nesse momento, mas entrei para a segunda turma. Desde o primeiro momento, encantei-me com o DOSVOX e me apresentei ao professor Antônio como vice-presidente da ABEDEV pela região Sudeste e ofereci ajuda para organizarmos uma turma com participantes de outros Estados.

 

A terceira turma aconteceu em julho do mesmo ano e o DOSVOX começou a viajar pelo país. Mas eu não sei se vocês sabem quem incentivou a criação do DOSVOX. Foi Marcelo Pimentel. Marcelo é um menino cego, aluno da Faculdade de Informática da UFRJ na época, que caiu na mão do professor Antônio Borges como aluno. Antônio era professor de computação gráfica. Tudo visual, não é? O que Antônio vai fazer com um aluno cego em sala de aula? Antônio não se sentiu derrotado, foi para casa, pensou, pensou, pensou e voltou com uma proposta para Marcelo: criarem um editor de texto com voz. Ele pediu a Marcelo que levasse sua máquina Braille. Eu sei que o professor Antônio adaptou essa máquina de forma que, quando Marcelo a teclasse, estaria mandando o texto para o computador. Então, no primeiro momento, ele usou um teclado Braille para chegar ao micro.

 

Começou assim: Antônio dava a Marcelo a receita do bolo de como fazer o programa, e assim começou o primeiro editor de texto em cujo programa, até hoje, está escrito o nome de Marcelo. Mas Antônio Borges foi evoluindo, evoluindo e conhecendo outras pessoas cegas e com novos interesses, e foi atendendo aos interesses de cada um. Antônio, na minha opinião - se não me engano nenhum cego brasileiro é capaz de dizer o contrário -, abriu as portas e as janelas do mundo para as pessoas cegas, não somente brasileiras. O software já está traduzido para o espanhol e está na América do Sul. O México o contratou para fazer a tradução para o espanhol. Ele é o cara que passou a dedicar a própria vida, de manhã, de tarde e de noite, somente ao projeto DOSVOX. Bom, o DOSVOX começou por causa de um aluno cego.

 

Alguns anos depois, apareceu no NCE a doutora Lenira Luna, tetraplégica, médica radiologista. Ela foi conversar com Antonio e pedir ajuda: ela queria um programa que ela pudesse usar. Como médica, ela queria redigir os laudos dos pacientes, mas não podia. Ele ficou com aquela pulga atrás da orelha. E aí nasceu o software chamado Motrix. É para as pessoas com deficiência motora que têm dificuldades para mexer com as mãos. O Motrix funciona 100% com comando de voz ou com mouses adaptados, e o programa atende muitas pessoas com deficiência motora. Anos depois, no Rio, foi baleada uma menina, Luciana Gonçalves de Novaes, estudante de enfermagem da Estácio de Sá - bala perdida. A menina ficou completamente imobilizada, sem fala, sem nada. 206

Não sei como, Antônio chegou até Luciana e criou para ela um software chamado Fênix. Gente, eu me arrepio toda. Saindo das cinzas! Luciana, hoje, usa computador, por sopro! Ela sopra e o programa funciona.

 

Entrevistador: O uso da informática, além dessa dimensão profissional, como você a percebe do ponto de vista da organização do movimento político, que depende de comunicação, de documentos escritos. A informática abre uma porta, uma janela?

 

Ethel Rosenfeld: Abre, amplia a discussão. Com certeza. Por exemplo, as listas de discussão. Na época, quando se discutia a inclusão no Brasil, eu participava de uma lista. Ali, você tem a discussão, começa a ter pontos de vista diferentes. Nós discutimos muito, pelas listas a inclusão, a educação inclusiva, as políticas, as questões dos cães-guias, qualquer tipo de necessidade. Agora mesmo, está se discutindo há algum tempo, há mais de um ano, a questão da audiodescrição! Surgem pessoas que você nem sabe onde estavam, de onde vieram e formam grupos enormes de discussão. A gente consegue elaborar documento por meio de discussão na internet e até destituir pessoas do poder. A internet colabora muito com o movimento. Rosangela Berman, lá do fim do mundo, vive em contato com a gente, vive fazendo as coisas.

 

Entrevistador: Na primeira metade da década de 1990, você participou da elaboração da Política Nacional de Educação Especial.

 

Ethel Rosenfeld: Isso. Foi em 1993, na elaboração da Política Nacional de Educação Especial, Educação Especial um Direito Assegurado. A professora Rosita Edler Carvalho, na época Secretária da Secretaria de Educação Especial, me convidou para fazer esse trabalho junto com mais três professores da área das pessoas com deficiência visual: o professor Adilson Ventura, a professora Sônia Dutra e o professor Paulo Felicíssimo Ferreira. Primeiro, cada grupo, cada área da deficiência, discute seus pontos e depois, no final, juntam-se todos os trabalhos para aprovação em um grupo maior. Por fim, a redação da política.

 

Entrevistador: Quais os principais embates desse trabalho?

 

Ethel Rosenfeld: Eu não vou lembrar, faz muito tempo. Mas eu posso lhe dizer, com certeza, que se discutiu, como sempre se discutiu em assuntos de educação das pessoas cegas, a inclusão ou integração, como era denominada na época, e a escola especial, a escola que se chama de residencial ou a escola integrada. A gente sempre tinha esse assunto em pauta, sempre, em qualquer lugar. Há pessoas que são 100% a favor só da escola residencial, que seria o Benjamin Constant, internato; e há as que são 100% a favor da escola integrada; e outras, ainda, como eu, que ficam no meio do caminho. Eu sou 50% de um lado e 50% de outro.

 

Nas salas de recursos das redes municipais do Brasil todo, onde as crianças ficam nas escolas regulares, uma ou duas crianças cegas recebe um apoio especial da professora especializada e depois volta para a sala de aula. Então, toda convivência social dessa criança é com outras que enxergam. Ela não convive socialmente com outra criança cega, e eu acho que faz muita falta esse convívio. Por outro lado, eu creio que para a alfabetização em Braille e para a matemática, com o auxílio do Soroban, a criança cega deve ser preparada numa escola especializada e só depois, quando ela estiver lendo, escrevendo e fazendo as quatro operações básicas no Soroban, isso lá pelo final da segunda série, pode-se começar a pensar em transferi-la para uma escola regular. Para alfabetizar em Braille uma criança na idade normal - de 4 a 6 anos - é preciso, primeiro, preparar-lhe a coordenação motora, a lateralidade, saber o que é direita e esquerda, o que é em cima e embaixo, o que é meio, e a coordenação motora fina, os movimentos de pinça. Toda essa preparação acontece em um ano. Isso, antes de chegar ao Braille.

 

Vejam a complexidade que é alfabetizar uma criança cega: com 6 pontinhos formamos 63 combinações para ter tudo o que se escreve. Então, por que a integração e a inclusão são importantes? Porque desde pequenininho você ensina a criança a conviver com a diferença. Com certeza essas crianças não serão preconceituosas, não serão adultos preconceituosos. Isso tem um valor muito importante. Os próprios professores aprendem. É uma forma de você estar colocando uma pessoa com deficiência em um contexto maior. Ali elas passam a ser olhadas, conhecidas e respeitadas como seres humanos, como pessoas. Eu sou 100% a favor da integração, da inclusão - porque mudou o nome e mudou o sentido também -, mas há necessidade de a base ser dada em locais especializados, para crianças surdas principalmente. A educação do surdo é mais complicadinha ainda. Vocês já sabem a diferença do conceito de um e de outro, a grande diferença?

 

Entrevistador: Diga para a gente.

 

Ethel Rosenfeld: Na integração, você colocava a criança com deficiência na escola regular. O professor itinerante ia à escola - na minha época de professora -, conversava com os professores, com as crianças, antes de a criança com deficiência chegar, e conversava também com a direção e com todos os funcionários. O professor falava mostrando que aquela criança era capaz e que ela precisava de apoio das outras crianças, que todos colaborassem com ela.

 

A inclusão requer algo mais importante: a especialização dos professores, que não existe, que é utopia no nosso país.

 

O professor da rede pública que vai trabalhar com a criança com deficiência teria de ser um professor especializado, ter passado por um curso, e todo o staff da escola também deveria ser preparado. A escola deveria ser toda adaptada, fisicamente, para atender as crianças com diferentes necessidades, coisa que já está acontecendo. Tudo o que é físico, visível, vem acontecendo, e tudo que é comportamental não se consegue resultado. Principalmente nessa área de especialização. A inclusão precisa da escola adaptada - o que já está acontecendo: a parte física acontece mais fácil, mais rápido -, e todo o pessoal da escola bem esclarecido. Romeu Sassaki implantou um projeto em Goiânia para crianças surdas e cegas que deu muito certo. Mas isso são projetos pontuais, não foi o governo federal, foi o governo de Goiânia. Além da Política de Educação, também participei da Política Nacional de Integração da Pessoa Portadora de Deficiência, pela CORDE em 1992, na gestão da professora Maria de Lourdes B. Canziani.

 

Entrevistador: E a sua candidatura para vereadora?

 

Ethel Rosenfeld: Em 2004, fui convidada pelo deputado estadual Otávio Leite, que sempre trabalhou junto com as pessoas com deficiência. Otávio foi assessor do prefeito Marcello Alencar, quando foi criado o Conselho Municipal de Defesa dos Direitos da Pessoa Portadora de Deficiência, Otávio ficou sendo o elo entre o Conselho e o prefeito. Voltando, convidaram-me para ser candidata. Isso porque o meu nome já estava na mídia por causa do Gem e ele quis aproveitar a minha popularidade na época. A princípio disse que não, que não, mas acabei dizendo que sim. É aquela coisa, eu fui sendo seduzida e eu não sou difícil de ser convencida. A princípio eu digo não e depois eu vou me entusiasmando. E saí candidata.

 

Entrevistador: Você foi pioneira na experiência de ter um cão-guia aqui no Rio.

 

Ethel Rosenfeld: Sim.

 

Entrevistador: O que a fez procurar o cão-guia?

 

Ethel Rosenfeld: Em meados de 1996, ao tentar localizar entre uns novelos de lã (preto, cinza e branco) o preto, me dei conta que não estava enxergando mais nada. Até então, eu via vultos, luzes e distinguia as cores pela tonalidade: mais escuro, escuro, menos escuro... Quando joguei os três novelos sobre a colcha branca e não vi nada, levei-os para contrastar com a parede da sala (que tinha outra cor) e assim fui testando vários fundos diferentes, até que me convenci que eu havia ficado completamente cega. O medo e o desespero tomaram conta de mim. Por isso, perdi o controle para continuar usando uma bengala longa. No final do mesmo ano, eu saí, ou melhor, "fui saída", do Instituto Oscar Clark em dezembro de 1996, supertriste, arrasada e precisava de alguma coisa nova para motivar minha vida.

 

Em fevereiro do ano seguinte, um amigo de Porto Alegre, Marco Antônio Bertoglio, cego, me ligou e, papo vai, papo vem, ele me passou o contato da fundação do cão-guia. Quando eu era muito mais jovem eu quis ter um cão-guia. Então, no meu íntimo, eu tinha esse desejo. Eu disse: "Marco, por que não nós? Vamos, Marco?". Ele respondeu: "Vamos, vamos nos inscrever". E

nós nos aplicamos à escola. Candidatamo-nos a receber o documento. No dia 13 de outubro de 1997, Marco e eu entramos no avião e, como digo,

mergulhamos no escuro, no desconhecido. Desde o primeiro dia tudo foi muito difícil, porém muito gratificante. O treinamento é muito cansativo, todas as ações que o cão faz você se emociona, todo mundo se emociona, mas é maravilhoso.

 

Nessa época, o custo completo para a preparação do cão, desde o nascimento até a entrega à pessoa cega, incluindo nossa estada de 23 dias na Fundação, era de 10 mil dólares para a Fundação. E para a pessoa cega, o custo era zero. Aqui no Rio de Janeiro, esse custo foi estimado em 18 mil reais. Eu até ajudei na formação do primeiro cão do Rio de Janeiro, junto com o adestrador, George Thomaz Harrison, em 2007, ou 2006, estou em dúvida.

 

Voltei ao Brasil em novembro de 1997. Depois dessa emoção toda, comecei a ter problemas gravíssimos. Táxi não me levava para lugar nenhum com o cachorro, metrô não me levava e nem ônibus.

 

Resumindo: como eu saía de casa? Eu quis ir para o trabalho - eu trabalhava na prefeitura, na Secretaria de Saúde - e o que aconteceu? Não podia entrar no prédio; cachorro não entrava. A prefeitura havia me dado autorização, uma licença especial para eu buscar o cachorro, e eu não podia voltar ao trabalho e nem para a UERJ, onde cursava mestrado em Educação Especial. Ressalvo que não porque a UERJ me impedisse a entrada, mas porque nem o metrô nem os táxis nos transportavam. Aí começou o meu movimento. Era uma sexta, uma quinta, sei lá, e eu liguei para O Globo, para o Jornal do Brasil, contei o que estava acontecendo e pedi ajuda. Domingo saiu publicado em página inteira, nos dois jornais: "Professora barrada no prédio da prefeitura." Na segunda-feira, ligaram-me do prédio, o pessoal do departamento especial da prefeitura: "Como aconteceu isso com a senhora, professora? Claro que a senhora pode vir". No dia seguinte, estava toda a equipe da Guarda Municipal da prefeitura me esperando na entrada. Eu entrava, por incrível que pareça, pela entrada do prefeito, porque a entrada do prédio tem muita escadaria e pela garagem você já sai direto no elevador, que me deixava praticamente na porta da minha sala, no meu andar. Então, me permitiram entrar pelo elevador, que era o do prefeito. Depois, então, comecei a batalhar pela lei, no final de 1997, começo de 1998. As datas é que eu estou complicando: a lei estadual aconteceu em novembro de 1999, se não me engano.

 

Entrevistador: A lei de 1998 foi a municipal, do [Luis Paulo] Conde.

 

Ethel Rosenfeld: Não foi uma lei, foi um decreto criando um parágrafo com a exceção para o cão- guia entrar em todos os estabelecimentos públicos e/ou privados, de uso coletivo. Esse decreto se refere à lei de 1984.

 

Entrevistador: E você obteve uma autorização provisória em 1997?

 

Ethel Rosenfeld: Sim, uma autorização provisória da vigilância sanitária do Rio de Janeiro até dezembro de 1998. A do metrô foi quando?

 

Entrevistador: A do metrô foi em março de 1998, e em fevereiro de 1998 foi o Decreto n° 16.464, de Luiz Paulo Conde, prefeito do Rio.

 

Ethel Rosenfeld: Isso. Eu vou explicar: o metrô foi a segunda autorização provisória.

 

Em dezembro de 1997, procurei o gabinete da deputada estadual Tânia Rodrigues, para pedir-lhe que apresentasse o projeto de lei sobre o cão-guia - eu já tinha um protótipo desse projeto, havia feito com ajuda de um professor do mestrado e com o advogado do CVI-Rio, Dr. Alexandre Magnavita. Tânia ignorou meu pedido, nem deu bola.

 

Em março de 1998, depois de uma apresentação no Fantástico, onde fui barrada no metrô, o pessoal do gabinete da Tânia se interessou e me procurou para pegar todo o material que eu já havia deixado no gabinete em dezembro passado. Para tristeza deles, Solange Amaral, na terça, entrou com um projeto de lei 15 minutos antes do pessoal do gabinete de Tânia. Isso significava que o projeto apresentado por Tânia não entrava. Um assessor dela me telefonou e teve a cara de pau de me pedir que telefonasse para Solange e lhe pedisse que retirasse o projeto dela.

 

Disse que jamais faria isso, que ela se interessou espontaneamente pelo assunto e que eu iria procurá-la para agradecer e oferecer ajuda e crítica construtiva ao projeto, se necessário.

 

Perguntei à Solange por que ela se interessou por esse assunto e ela me contou que um advogado amigo dela - estou começando a lembrar - já havia lhe encaminhado um protótipo de lei e que esse advogado tinha conhecido o meu cunhado nos Estados Unidos, onde rolou o assunto sobre minhas dificuldades - foi ela que me contou a história. E ele queria me conhecer. Eles eram amigos, Solange e esse advogado - veja que mundo pequeno! Solange Amaral disse: "O doutor Paulo quer conhecer você". E doutor Paulo disse: "Ethel, eu tenho de ajudar você. Mas para isso nós temos que provocar alguma situação que mexa com o Estado. Então você vai sair daqui hoje e no caminho para a UERJ você vai parar na Biblioteca Nacional, vai entrar com o Gem e vamos ver se você vai ser barrada. Eu preciso documentar que você foi barrada". Não fui barrada, que pena.

 

Depois, Paulo me ligou: "Você, no sábado, vai para o Municipal". Lá fomos nós quatro: Joana (minha sobrinha), um assessor do doutor Paulo, Gem e eu. Estou na fila para comprar os ingressos, chegando a minha hora. De repente, como esperávamos, veio um segurança e perguntou à minha sobrinha: - Ela vai entrar com o cachorro? Eu me meti e respondi: - Claro, é meu cão-guia, eu tenho de entrar com ele.

- Um momentinho, por favor. A senhora pode se afastar um pouquinho da fila? Tirou-me da fila. Era tudo o que a gente queria. E foi chamar a diretora do teatro. Ela veio, uma chefe deslumbrante: - Me disseram que a senhora quer entrar no teatro com o cachorro. Eu disse: - Claro. É um direito meu, ele não é um simples cachorro, ele é meu cão-guia. - Não, mas eu não posso deixar. Estou com a casa cheia, como colocar em risco 2.200 pessoas? Bom, vou resolver. A senhora pode entrar, sim, mas vai descer e vai assistir no telão, no nosso restaurante. - Para assistir por telão, eu assisto na televisão, na minha casa. Eu não vim aqui para assistir cineminha, não. Eu vim aqui para assistir à orquestra ao vivo. Vai, não vai, vai, não vai. E o advogado anotou tudo, o nome de todo mundo e fomos embora com aquilo de que precisávamos. Era um sábado. Na segunda-feira, o doutor Paulo entrou na justiça pedindo uma liminar; na terça à noite, o juiz bateu o martelo a nosso favor. Na terça, da semana seguinte, fui ao teatro assistir à abertura do Ciclo de Beethoven. Quando cheguei ao teatro, com minha irmã e minha sobrinha, com o meu companheiro lindo, de gravatinha borboleta, minha sobrinha foi estacionar o carro e deixou a minha irmã e eu em uma esquina, na calçada do Municipal. Minha irmã comentou: - Que vergonha, Etinha (minha família me chama de Etinha). - O que foi? - Você não pode imaginar os milhares de holofotes em cima da gente. Eu não tenho onde enfiar a cara. Fomos andando, e eu só escutando os baleiros: "Ele chegou! É ele! Olha ele! É ela! Eles estão aí". E eu fingindo que não estava querendo rir, morta de vontade de rir, fazendo papel de quem não está ligando para nada. Mentira, eu estava superemocionada. No intervalo, saímos para tomar água, e 300 jornalistas em cima da gente. Isso foi o maior ganho, politicamente, para nós. Quer dizer, Gem nos trouxe isso, ajudou de fato a todos. O povo interpretou que eu podia entrar em qualquer lugar. A liminar era somente para o Municipal. O povo dizia: "É a mulher do cachorro, é a mulher do Municipal". Eu entrava e ficava quieta.

 

Entrevistador: E a novela América, foi um momento de visibilidade?

 

Ethel Rosenfeld: Foi o coroamento da minha carreira, como eu digo. Eu achava que o único meio de levar ao nosso povo brasileiro a cultura do cão-guia era por

meio de uma novela. Isso era o meu sonho desde o início. Porque jornal, coisas rapidinhas, não marcam: a pessoa leu, esqueceu. Mas uma novela, que todo santo dia tem aquele personagem cego e o cão-guia ao lado, vai marcar. Eu pedia muito a Eurico: "Eurico, converse com a Marluce, vê se arranja um autor que se interesse pelo tema, que queira fazer essa novela". Acho que ele nunca pediu ou nunca ninguém atendeu. Um belo dia, do nada, eu recebi um telefonema da pesquisadora da Glória Perez, Giovana Manfred, dizendo que a Glória Perez tinha admiração pela minha história e que ela queria me conhecer para fazer uma entrevista para levar para Glória.

 

Entrevistador: E nessa visibilidade na grande mídia você percebe resultados?

 

Ethel Rosenfeld: Muitos. Não só para a área das pessoas com deficiência visual, mas para todo tipo de diferenças, deficiências. Houve muita gente que "meteu o pau" no Marcos Frota: "Cara chato, cara isso, cara piegas". Houve cenas realmente piegas, mas eles não têm culpa, foi Glória Perez que escreveu. Eu até comentava com a Glória e ela me respondia: "Mas é poético..." E a gente tem de engolir. Ela é a autora. Mas aí aconteceram umas cenas chatas, e o pessoal que sabia que eu estava dando consultoria me mandava e-mail, criticava. Eu tinha de dizer: "Gente, eu faço o que eu posso. A autora é ela!" Eu queria que cenas muito importantes tivessem aparecido, e ela não colocou. Eu queria mostrar o Jatobá, que era o personagem do cão-guia, assinando cheque, assinando cartão de crédito, mostrando que a pessoa cega também usa cheque, também usa cartão, porque muita gente não sabe. Isso passou. Acho que há uma cena de cartão só, se não me engano.

 

Houve momentos importantes da nossa vida de cego que eu queria que eles mostrassem, mas não mostraram. Eu acho que valeu, sim, valeu muito, a novela foi um meio de divulgação. E houve aquele quadro de entrevistas que eles criaram com o Dudu Braga, filho do Roberto Carlos, "É preciso saber viver", que deu uma chance a que pessoas de outras áreas de deficiência falassem.

Acabou a novela, a Globo resolveu não parar porque viu que não podia perder o gancho. Cria um marketing, eu não sei como eles chamam, uma cena, onde Marcos Frota fala da pessoa com deficiência. Nessa cena estávamos eu e outras pessoas sentadas no chão em volta dele. Aquele menino que é campeão de natação, como é o nome dele?

 

Entrevistador: Clodoaldo?

 

Ethel Rosenfeld: Clodoaldo. Clodoaldo abraçado comigo, aquela menina que é um amor, com síndrome de Down, a Paulinha, filha da Helena Werneck... Como é o nome da instituição da mãe dela?

 

Entrevistador: Instituto Meta Social?

 

Ethel Rosenfeld: Meta Social. Isso aí. Meta Social. Filha da Helena do Meta Social. Eles escolheram algumas pessoas que tinham mais visibilidade na mídia. Montaram aquela cena que ficou algum tempo no ar. Daí emendaram outras situações dentro da Globo e veio Páginas da Vida, com a Clarinha (Joana Mocarzel). Começam a rolar coisas sempre falando de deficiência. Como eu digo, O Gem e Ethel não abriram portas para cegos somente, foi geral. Foi fato, fato comprovado. Agora nós temos a Daniele Haloten, uma garota cega, gravando a novela das sete.

 

Entrevistador: Você pode fazer um pequeno balanço do movimento até hoje, destacando o que você considera mais relevante?

 

Ethel Rosenfeld: Acessibilidade. Mal ou bem está sendo um movimento. Com a reforma da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), a acessibilidade teve um grande ganho no Brasil. Uma visibilidade boa já está acontecendo. Há muitos governadores e prefeitos procurando tornar as cidades acessíveis. No Rio-Cidade Um, o CVI entrou quando os projetos já estavam em andamento e foi difícil atuar corretamente. Eram 17 escritórios de arquitetura que fizeram esse trabalho do Rio.

 

E, segundo a Verônica Camisão nos explicou, a nossa arquiteta de acessibilidade, cada escritório tinha a sua autonomia. Isso era uma bagunça geral, não houve padronização nessa reforma, cada um fez o que quis. Então, a Verônica, como queria implantar o piso diferenciado para as pessoas cegas, o piso de alerta - existe o piso-guia, que vai em uma reta, e o de alerta, de outro tipo de textura, que avisa quando tem um orelhão, um meio-fio -, convidou umas pessoas cegas, e nós nos reunimos no Largo do Machado.

 

O primeiro bairro foi o meu, o Catete, e, quando eles colocaram o piso para a gente aprovar, nenhum de nós aprovou. Nenhum. Havia até cadeirante. Nenhum aprovou. Verônica se reuniu conosco num cantinho e disse: "Gente, ou aprovamos isso ou perdemos até o espaço. Aprovando, temos a chance de depois trocar o piso. O buraco já está feito, já está reservado para o piso, a marcação". Então, aceitamos.

 

Não foi trocado até hoje.

 

Esse é o grande problema: você aceita e não resolve.

 

Quando veio o Rio-Cidade Dois eu já tinha o Gem. Aconteceu uma reunião dos arquitetos no Instituto de Arquitetos do Brasil, que fica aqui atrás de casa, e nós do CVI, do movimento, fomos convidados para falar sobre acessibilidade para eles. Foi um ganho fantástico porque nós entramos antes de as obras começarem. E como eu já tinha o Gem, achei superbacana eles fazerem questão de me ouvir, se eu teria alguma necessidade especial com o cão guia. Realmente nada de diferente por conta do cão. O fato de eles nos chamarem antes de começarem as obras, foi uma vitória, fomos ouvidos antes dos erros serem cometidos. Isso é um ganho, um marco.

 

Por isso digo que a acessibilidade em todos os níveis e nossa voz ativa foram os grandes ganhos a partir de 1981.

 

Até a questão da mídia cresceu muito a nosso favor, muito. Izabel Maior, já na CORDE, promoveu um encontro da mídia conosco. Reunimo-nos em uma Câmara Técnica, durante dois ou três dias, e discutimos com jornalistas interessados, o pessoal da área de comunicação, o que nos interessava. Falamos muito dessa questão de eles só se interessarem por notícias pontuais, tipo: 17 de setembro, aniversário do Benjamim Constant, 21 de setembro, Dia Nacional de Luta, cego atropelado, cão barrado, essas notícias que dão Ibope e nada contribuem para a causa da pessoa com deficiência. Isso mudou bastante.

 

 Há dois assuntos que eu vou abordar que são muito importantes para o movimento.

 

Primeiro, o cumprimento de leis. A Lei de Cotas foi um mal necessário; acho que deu um grande pulo no Brasil para integrar as pessoas com deficiência. Não se cobrava a Lei de Cotas, ela estava engavetada. De repente, ela começou a ser cobrada, todos os Ministérios Públicos passaram cobrar, e isso é bom porque as empresas estão sendo multadas, e elas, então, estão recebendo as pessoas para trabalhar. Nós temos muitas pessoas com deficiências empregadas hoje por causa da Lei de Cotas. E as faculdades começaram a se tornar acessíveis para atender as pessoas usuárias de cadeira de rodas, os cegos começaram a ter equipamentos adequados tipo scanner, computador, impressoras Braille, etc. Tudo isso é avanço, é ganho. O segundo assunto é o Decreto de Acessibilidade, que reúne duas leis anteriores sobre acessibilidade e que foi aprovado pela Câmara Federal. E o cão-guia também já está lá, garantido no decreto federal de acessibilidade. E temos, depois disso tudo, as leis relativas ao cão-guia, especificamente.

 

A primeira foi de Florianópolis, ainda em 1997, quando Moisés voltou da Nova Zelândia e a escreveu. Em cima do modelo do Moisés, nós, Alexandre Magnavita e eu, escrevemos a lei do Rio. Eu tenho de contar uma coisa: primeiro nós fizemos a lei municipal. Um professor meu da UERJ, um socialista de primeira, quando cheguei dos Estados Unidos, completamente por fora da matéria, eu tinha que apresentar um trabalho de fim de ano e ele disse: "Ethel, como você perdeu as nossas aulas, você vai escrever a lei do cão-guia para nós apresentarmos na Câmara dos Vereadores, porque isso é um ato social, tem a ver com nosso trabalho e vai beneficiar você e outros."

 

Foi assim que nasceu a primeira lei sobre cão-guia no Rio de Janeiro. Encaminhamos à Câmara dos Vereadores e houve até um vereador, Edison Santos, que aproveitou nosso trabalho e transformou em projeto de Lei, mas não foi para frente, morreu em alguma gaveta. Solange Amaral, deputada que defendeu a lei do cão-guia no Estado do Rio de Janeiro, e Romeu Tuma, em âmbito federal. Para ser bem honesta, foi Simão Sessim, deputado federal pelo Rio de Janeiro, quem levou o modelo da minha casa para virar projeto em Brasília. Depois, vários outros deputados foram apensando outros projetos até

que por fim, 7 anos depois, a lei 11.126 foi assinada em 2005 e o decreto que regulamenta essa lei, em 21 de setembro de 2006. Também na educação, principalmente na de alunos cegos, melhorou muito; não é ainda o desejado, mas já melhorou.

 

Já temos Centros de Produção Braille espalhados por todos os Estados, bem informatizados. Um ganho importantíssimo é a garantia da vaga, no ato da matrícula, de alunos com deficiência, na escola mais próxima de sua casa, em toda rede de ensino público, na escola regular de ensino. Ah, lembrei-me de uma coisa superlegal: as revistinhas infantis. Maurício de Sousa criou uma personagem cega, a Dorinha, que tem um cão-guia, e o Lucas, que anda em cadeira de rodas. Esses personagens aparecem nas revistinhas que são vendidas nas bancas de jornais.

 

Também temos as revistas Mônica e Cebolinha editadas numa versão com Braille e letras ampliadas para crianças cegas e de baixa visão, que a gente compra em livrarias. Teria muito mais para listar, mas tenho medo de ser injusta com as outras áreas de deficiências. Para finalizar, compartilho com todos mais um ganho relevante, mas esse foi um ganho específico para mim: Gem. De alguma maneira, de forma indireta, Gem também trouxe ganhos para muitas pessoas cegas. Meu Gem merece todo nosso respeito e nossa admiração.

 

HOMENAGEM A GEM

 

Gem nasceu em 18 de abril de 1996, na maternidade da Guide Dog Foudation for the Blind (GDF), em Smithtown, Long Island, Nova York. Não sei se Gem sabia de sua missão na Terra, mas sei que ela foi grande e ele a desempenhou com eficiência, elegância e determinação. Gem teve o poder de transformar conceitos, quebrar paradigmas e conquistar corações.

 

Gem "é" um ser iluminado que veio para iluminar mentes e vidas. Segundo a tradição judaica, o número 18 significa em hebraico "Chai", que traduzido significa VIDA. E é isso que Gem fez: viveu intensamente e sua vida e modificou vidas. Gem morreu em 30 de dezembro de 2008, aos 12 anos e 8 meses. Gem não só deixou saudades, Gem deixou uma grande lição de vida. Gem era carinhoso, doce, trabalhador e foi responsável pela implantação da cultura sobre cão-guia em nosso país. Graças ao Gem e outros colegas de sua espécie, hoje temos no Brasil leis municipais, estaduais e federal que garantem às pessoas cegas acompanhadas de seus cães-guias a ingressar e permanecer em qualquer estabelecimento, público ou privado, de uso coletivo. Gem teve a honra de representar os cães-guias brasileiros na cerimônia de assinatura do Decreto no 5.904, de 21 de setembro de 2006, que regulamenta a Lei nº 11.126, de 27 de junho de 2005, no Palácio do Planalto, Brasília, em 21 de setembro de 2006, Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência.

 

Gem me convidou para acompanhá-lo e tive a honra de receber, simbolicamente, das mãos do presidente Lula, o decreto assinado. Gem teve várias outras participações na vida pública brasileira. Uma delas foi ter inspirado a novelista Glória Perez a criar um personagem cego, que usasse cão guia. Como sempre, ao lado de Gem, acabei sendo convidada para prestar consultoria ao núcleo da deficiência visual da novela América, Rede Globo, 2004/2005.

 

Outra grande aventura de Gem foi ter ganho as eleições no concurso denominado Cão Herói, promovido pela Effem Brasil em parceria com a Rede de Hipermercados Wal-Mart e a ONG internacional Paws to Recognize. O concurso aconteceu durante os meses de julho e agosto de 2003, nas lojas da Rede de Hipermercados Wal-Mart, em todo território nacional. O prêmio foi ter suas patas gravadas na Calçada da Fama Animal, em frente à Humane Society of the United State em Washington, DC. Desta vez, invertemos os papéis: eu levei Gem e não ele a mim. Para mim, o mais importante foi ter aprendido com Gem, meu filho, meu parceiro, meu cúmplice, meu tudo, o que é AMAR verdadeiramente. Amar sem pedir, amar em silêncio, amar sem palavras, amar nos gestos, amar por amar. Agora terei que aprender a amar sem tocar, amar sem ouvir, amar sem sentir o cheiro, amar a doce lembrança e amar a saudade. Essa será, com certeza, a lição mais difícil de minha vida. Para tentar amenizar um pouco minha dor, coloquei as cinzas do Gem, no meio da terra, num grande vaso onde plantei três mudas de Árvore da Felicidade, transformando suas cinzas num novo ser vivo, de outra espécie. Afetivamente, tenho Gem juntinho de mim, converso com ele todas manhãs e, antes de dormir, toco na árvore, aliso o vaso e sinto-me um pouco melhor, menos triste.

 

Para Gem, meu eterno amor e minha eterna saudade. Rio de Janeiro, 6 de janeiro de 2009, 3h21

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