Por Dr. Scott Rains,
srains@oco.net
Traduzido por Patricia Ribeiro
À medida que a Índia passa a ocupar um lugar central
no cenário mundial e mais pessoas querem descobrir o passado e o presente desse
país, as viagens para a Índia e na Índia adquirem uma importância nunca vista
(e felizmente, os visitantes com deficiência são uma parte crescente desse cenário). O turismo em si é uma
indústria geradora de recursos em qualquer país, quer o visitante tenha deficiência
ou não. Atender as necessidades de TODOS e tornar as viagens confortáveis deve
ser o foco principal da indústria da hospitalidade. O que está sendo feito e o
que pode ser feito para receber esta bem-vinda tendência? Devemos ter em mente,
porém, que o turismo não se reduz a pontos turísticos. Este artigo explora,
portanto, o princípio inerente e os pré-requisitos essenciais que devem
governar todos os aspectos do turismo: o Desenho Universal.
"O Turismo Inclusivo
é um movimento global para garantir a participação social plena de todas as pessoas com deficiência no turismo, na cidadania, e na contribuição cultural
- e, nesse processo, garantir o mesmo para todas as outras pessoas", escreve o
Dr. Scott Rains, um ativo defensor do turismo inclusivo. Com este aviso: "Por
ser uma pessoa com deficiência que pesquisa, escreve e faz palestras sobre o Turismo
Inclusivo enquanto prática e referência para as políticas do turismo, tenho a
tendência de ilustrar seu potencial utilizando o turismo com deficiência como exemplo. Naturalmente, aplico o Desenho
Universal, enquanto desenho centrado na pessoa, à medida de meu próprio corpo e
de suas capacidades". Ele explica que a estratégia para orientar o turismo deve
estar em acordo com o Artigo 30 da UNCRPD (Convençao das Nacões
Unidas sobre os Direitos da Pessoa com Deficiência).
Dentro de um aquário sobre a minha escrivaninha, um irrequieto
peixinho dourado acompanha o progresso de minha caneta sobre a página. Um par
de passarinhos engaiolados no canto da sala troca bicadas e conversa em palavras
de pássaro cuidadosamente escolhidas. Cada um desses animais têm acesso à minha
casa - cada qual dentro de um espaço estritamente definido. Porém, o mero
acesso é muito menos que a inclusão. Nenhum deles jamais participará de nossa
vida familiar da mesma forma que nossa cachorrinha de estimação, que encara isso
como um direito de nascença. O acesso pode ser suficiente para a sobrevivência,
mas somente a inclusão torna possível a alegria da participação.
Falta inclusão ao turismo. O artigo 30 da UNCRPD deixa
claro que isso não pode continuar assim. A observação à distância, de dentro de
um aquário, ou o comentário feito do lado de fora dos espaços e atividades que
as pessoas sem deficiência
podem usufruir é coisa de animais de estimação, e não de gente. O Turismo
Inclusivo é a aplicação sistemática do Design Universal por parte da indústria
de turismo e da hospitalidade a cada estágio do ciclo de vida de seu produto,
serviço e políticas.
O Turismo Inclusivo começa por uma visão das pessoas como são, em toda a diversidade
de suas habilidades. Ele lança um olhar sobre todos os estágios do ciclo da
vida humana: crianças, adultos, e idosos. Ele vê todas as pessoas, quer a que anda
com uma bengala numa escola, a que usa botas da moda num shopping, ou a que
volta do poço da vila carregando um pote de água na cabeça.
É óbvio que uma definição tão concisa desperta questões
como, "Por que não 'acessível' ao invés de 'inclusivo'? E: "O que é Desenho Universal?"
Quando as pessoas ouvem a palavra "acessível" ligada ao
turismo, elas pensam ter uma boa noção do que isso significa. E aí está o
problema.
Quase todo mundo crê saber o que "acessível" significa,
mas como o termo nunca foi claramente definido, quase todo mundo inventa sua
definição pessoal para ele. Essa é uma receita desastrosa. Se os viajantes e a
indústria do turismo não tiverem uma linguagem comum, pode-se imaginar com que
frequência surgirão desapontamentos e conflitos. Se os donos de hotéis e a
construção civil não tiverem uma forma de descrever as soluções que buscam para
o design e a construção, qual será a probabilidade de que ambos os lados
cheguem a um resultado satisfatório?
O Turismo Inclusivo, e o conceito relativo a ele,
Desenvolvimento do Destino Turístico Inclusivo, têm sido definidos em palestras
e em artigos científicos justamente para evitar esses enganos. O termo "inclusivo"
refere-se ao conceito de inclusão social - o oposto da exclusão encontrada no
estereótipo, na piedade como um substituto para a justiça, e na discriminacão ostensiva.
Um lugar pode ser acessível ao mesmo tempo que as
atividades desenvolvidas nele ou as atitudes de quem ali trabalha sejam
extremamente excludentes. Um lugar pode até ser feito acessível para um
cadeirante de uma forma que impeça o acesso de uma pessoa cega ou de alguém com
2,5 metros de altura.
A inclusão se refere à aceitação ativa de uma pessoa
ou de um grupo por outrem. Ela envolve comunicação no plano dos valores e
tradições. Ela é um processo cultural de transformação no qual todos os
participantes são adequadamente valorizados. As identidades culturais podem permanecer
intactas, mas a qualidade da interação expande a capacidade para a tolerância e
o entendimento entre todas as partes.
De uma certa forma, o Turismo Inclusivo, como uma
abordagem, exemplifica o que de melhor se pode esperar para uma experiência pessoal do turismo e seu impacto social
enquanto indústria.
É por isso que o Turismo Inclusivo nunca pode ser dissociado
dos sete princípios do Design Universal. Uma abordagem do turismo - uma
abordagem que sirva para todas as pessoas com deficiência de modo a não estigmatizá-las
e isolá-las ainda mais como objetos de piedade - exige o Design Universal,
assim definido: O Design Universal é um
sistema para a criação de espaços, objetos, informação, comunicação e políticas
a serem usados pela maior gama possível de pessoas operando na maior gama
possível de situações sem a necessidade de um desenho especial ou à parte.
Simplificando, o Design Universal é o design, centrado na pessoa, de tudo para todos.
O Design
Universal também é conhecido como Design Inclusivo, Design para Todos e
Lifespan Design ("Design para Toda a Vida"). Ele não é um estilo de design, mas
uma orientação para todo processo de criação que parta de uma responsabilidade
para com a experiência do usuário. (Fonte: Adaptive Environments)
O Turismo Inclusivo envolve um círculo de comunicação
entre os viajantes, os profissionais da indústria do turismo, os responsáveis
pela definição de políticas, os designers e construtores como partes interessadas
no melhor resultado possível para todos. Esse resultado é previsível e
compreensível enquanto produto e qualidade de serviço ao consumidor.
Quando a indústria se mostra hesitante em suprir as
necessidades dos consumidores de um modo que elimine a exclusão, pode se tornar
necessária a aplicação de políticas de proteção. Porém é preferível descobrir -
ou inventar - práticas que se mantenham através dos mecanismos usuais do
mercado.
Uma transformação nas atitudes, práticas e design
acontece quando os viajantes com deficiência são reconhecidos por seu potencial como clientes rentáveis. Até
mesmo o viajante mais relutante ou com a maior deficiência poderá usufruir de
uma viagem com sucesso se a indústria do turismo estiver atenta à inclusão a
cada passo do caminho. Quando isso ocorre, os viajantes podem saber exatamente
como complementar, com sua própria engenhosidade e seus próprios recursos
pessoais, o que lhes é oferecido.
Quando a indústria do turismo começa a ponderar
seriamente as variações nas capacidades dos indivíduos que ela serve, surgem
questões práticas relacionadas à criação de produtos, espaços ou políticas que
honrem os indivíduos com diferentes habilidades. A necessidade de princípios
que orientem o design e as decisões na construção é uma das razões pela qual o
Turismo Inclusivo é indissociável do Design Universal. Nesse caso, são os Sete Princípios do Design
Universal que fornecem a visão coerente de excelência na indústria do turismo.
Estes são os sete princípios:
- Utilização equitativa: o
design não põe em desvantagem ou estigmatiza nenhum grupo de usuários.
- Flexibilidade de
utilização: o design se presta a uma vasta gama de preferências e
habilidades individuais.
- Utilização simples e intuitiva:
o uso do design é de fácil compreensão, independentemente da experiência,
conhecimento, habilidade linguística, ou nível corrente de concentração do
usuário.
- Informação perceptível:
o design comunica eficazmente ao usuário a informação necessária,
independentemente das condições ambientais ou das habilidades sensoriais
do mesmo.
- Tolerância ao erro: o design
minimiza os riscos e as consequências adversas de ações acidentais ou
involuntárias.
- Esforço Físico Mínimo: o
design pode ser utilizado eficiente e confortavelmente com um mínimo de
fadiga.
- Dimensão e espaço de
abordagem e de utilização: são oferecidos dimensão e espaço apropriados
para a abordagem, acesso, manuseio e utilização, independentemente da
estatura, postura ou mobilidade do usuário.
Duas aplicações específicas do Design Universal se
desenvolveram desde o surgimento do conceito
no início da década de 1970 e da formulação desses princípios em 1997.
A
primeira aprofunda significativamente o princípio 4. Essa abordagem é conhecida
como Design Universal para Aprendizagem. Ela é mais apropriada para a indústria
do turismo no planejamento de treinamento profissional ou no design de material
voltado para a educação do consumidor ou a promoção de produtos. O maior
divulgador do Design Universal para Aprendizagem é o Trace Center na
Universidade de Wisconsin-Madison.
A
segunda abordagem só foi formulada recentemente. Ela é focada num aspecto
específico do Turismo Inclusivo - o turismo aquático. Notavelmente, foram a
liderança do ministério do turismo e a indústria do turismo na Índia que aceleraram a formalização dessa
abordagem como os Princípios Waypoint-Backstrom.
Esses
princípios, primeiramente publicados no periódico Design for All India do
Instituto Indiano de Tecnologia, também começa com uma afirmação inabalável dos
Sete Princípios do Design Universal. Daí por diante, eles especificam áreas de ênfase
particular no design inclusivo num ambiente marinho.
Soni
Smarajan é um designer de produtos turísticos indiano e vice-presidente de uma
empresa de gerenciamento de destinos turísticos. Ele escreveu um artigo
intitulado "A Criação de um Produto Turístico Inclusivo: Desafios na
Índia". Nesse artigo, ele observa que
avanços na medicina podem fazer com que algumas deficiências desapareçam,
enquanto que o uso em excesso de novas tecnologias como os teclados de
computador e os joysticks por parte dos jovens pode tornar outras deficiências
mais comuns. Ele sugere, como um caminho apontando para o futuro, a orientação
do Design Universal de um modo flexível e centrada no usuário.
Desse
modo, Samarajan cria um paralelo ao que se define como a "definição evolutiva
de deficiência", sendo a deficiência
compreendida como uma interação entre a variabilidade humana das capacidades e as respostas socialmente
construídas a essas diferenças nas capacidades.
Esperamos
ter apontado suficientes caminhos para a indústria do turismo, os departamentos
governamentais e todos aqueles associados ao turismo para que façam com que os
viajantes se sintam em casa. Mas todos esses são conselhos para os anfitriões.
E quanto aos receptores desses esforços, as pessoas com deficiência? Para elas,
eis o que gostaríamos de dizer:
"Façam
as viagens que sempre quiseram fazer. Sejam as pessoas que preferem ultrapassar barreiras
a esperar que elas desapareçam. Sejam turistas que enfrentam os desafios do
turismo com senso de humor e espírito de aventura." Bon voyage!
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