Como Aprendemos a Andar no Mato (Portuguese)

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Por Marcos Sá Corrêa

Jan 20, 2010

Caminhar no mato parece a coisa mais natural do mundo, pelo menos desde que nossos ancestrais desceram das árvores e adotaram esta postura instável, que nos condena a problemas de coluna e, em troca, libera os membros superiores para tarefas mais elevadas - como estapear mosquistos ou empunhar o telefone celular para fotografar cada passo da jornada.

Tijuca Forest

Image via Wikipedia

Mas, apesar da aparente naturalidade, andar no mato é uma invenção recente, que no Brasil ainda depende muito de empresas especializadas e guias meio fanáticos, que apontam o caminho das trilhas como se elas fossem a estrada de Damasco. E basta um dia de enchente humana num parque nacional para ver o bom serviço que eles prestam. Sem seu fervor evangélico, as picadas estariam às moscas. Ligando geralmente o nada a lugar nenhum, elas dependem, para ter algum tráfego, da "caminhada romântica", moda que, segundo o historiador Simon Schama, nasceu no século XIX e tem autor conhecido.

Chamava-se Claude François Denecourt. Antes dele, só se ia ao mato para derrubar árvore, matar bicho ou fugir da cadeia. Denecourt foi retratato pelo literato Theophile Gauthier como "um homenzinho vestido com simplicidade, portando um chapelão e óculos, segurando o galho de azevinho que lhe serve de bastão para subir a encosta". Ninguém se iluda. Seu despojamento era grife, sua fantasia de "Le Sylvain", o gênio da floresta. A Nike, a Columbia, a Patagonia e outras etiquetas do ramo só viriam aprimorar o figurino dos caminhantes muitas décadas depois.

Denecourt foi, basicamente, um comerciante de conhaque em Fontainebleau, nos arredores de Paris. Ferido nas guerras napoleônicas, coxeava. Embora manco, era um andarilho infatigável, treinado em marchar por anos a fio de um lado para outro da Europa no 88º Batalhão de Infantaria Ligeira, com as campanhas do imperador. Ao dar baixa, conheceu a floresta de Fontainebleau quando ela caía aos pedaços. Fora uma reserva de caça real, tratada como terra de ninguém na França revolucionária - mais ou menos como por aqui, à falta de governo, fazem os grileiros da Amazônia.

Emperor Pedro II of Brazil, 1887.

Image via Wikipedia

Desmatada, defaunada e invadida, Fontainebleau sobreviveu aos tropicões da política francesa só porque Denecourt promoveu sua reciclagem como lugar de passeio. Ele abriu pessoalmente 300 quilômetros de picadas na floresta. Batizou itinerários, árvores e pântanos.

Transformou em refúgios rústicos as cavernas. Sua influência chegou até a concepção original do Central Park em Nova York ou, para ficar mais perto, à Floresta da Tijuca, no Rio de Janeiro. Aliás, todo jardim do paisagista Auguste François Glaziou, que reinou na corte de D. Pedro II, não deixava de ser uma espécie de miniatura da Fontainebleau de Denecourt.

Fontainebleau, onde Deneccourt é nome de rua e tem estátua en praça pública, está cada vez mais cercada por 24 mil hectares de velhos bosques preservados, desde que, no rastro de Denecourt, foram parar lá, de carruagem, os grã-finos do Império. Com eles pintores, toda uma geração que arranchou no vilarejo de Barbizon, num canto do bosque, e cevou ali uma escola de paisagismo que serviu, nos Estados Unidos, para inspirar a decretação dos primeiros parques nacionais.

Em resumo, os guias de ecoturismo que não nos ouçam. Mas caminhar no mato não é coisa que se nasça sabendo. É algo que se aprende. Como todo passo civilizatório.

 

http://marcossacorrea.com.br/2010/01/20/como-se-aprende-a-andar-no-mato/

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