Monografia de Mariana Coelho: Turismo Inclusivo

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A recem formada estudante da UFMG, Mariana Coelho tem publicado a monografia TURISMO INCLUSIVO: UM OLHAR SOBRE A UTILIZAÇÃO DA PRAÇA DA LIBERDADE COMO ESPAÇO DE LAZER, BELO HORIZONTE, MG.

UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS
Instituto de Geociências
Curso de Graduação em Turismo
_____________________________________________
TURISMO INCLUSIVO: UM OLHAR SOBRE A UTILIZAÇÃO DA PRAÇA DA LIBERDADE COMO ESPAÇO DE LAZER,
BELO HORIZONTE, MG.
______________________________________________
MONOGRAFIA DE GRADUAÇAO EM TURISMO
Mariana de Freitas Coelho
Belo Horizonte
2007

II
Mariana de Freitas Coelho

Turismo Inclusivo: Um Olhar Sobre a Utilização da
Praça da Liberdade Como Espaço de Lazer, Belo Horizonte, MG.
Monografia elaborada pela acadêmica Mariana de Freitas Coelho como exigência do Curso de Graduação em Turismo da Universidade Federal de Minas Gerais, sob a orientação do professor Marcelo Pinto Guimarães.
Belo Horizonte
2007

III
Mariana de Freitas Coelho

Turismo Inclusivo: Um Olhar Sobre a Utilização da
Praça da Liberdade Como Espaço de Lazer, Belo Horizonte, MG
Monografia apresentada no Curso de Graduação em Turismo à banca examinadora da Universidade Federal de Minas Gerais.
Aprovada em: 10 / 12 / 2007
_____________________________________
Professora Regina Martins
IGC – UFMG
_____________________________________
Professor Marcelo Pinto Guimarães (orientador)
EA-UFMG

IV
Dedico este trabalho ao Professor Dr. Marcelo Guimarães, pela paciência, sabedoria e bom humor sempre presentes. Ao querido Dr. Scott Rains, pela receptividade que rumaram às discussões e experiências inesquecíveis. Aos meus pais, meu irmão e meus amigos por todo apoio e carinho. A Deus, pela oportunidade de abrir mais essa porta em minha vida.

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RESUMO
Este trabalho aborda um estudo sobre a inclusão social em atividades que possam contribuir para a promoção de iguais oportunidades que considerem a diferença existente entre os indivíduos e incentivem o convívio social. Trata-se de uma avaliação de padrões de uso da Praça da Liberdade enquanto espaço de lazer e turismo que são descritos em oito cenários de atividades dos usuários. A acessibilidade e a inclusão são avaliadas a partir da análise da relação entre três indicadores dos cenários, sendo eles: a diversidade de pessoas, as atividades desenvolvidas e as condições de uso no ambiente físico. Constatou-se haver ações administrativas em relação a promoverem acessibilidade e inclusão social no âmbito da Praça da Liberdade. Entretanto, o grande potencial de se desenvolver o turismo inclusivo no local, devido à sua diversidade de cenários, ainda é mal aproveitado pelas instituições públicas e privadas que possuem alguma relação com o local.
Palavras-chave: Atividades de Lazer, Turismo, Acessibilidade, Inclusão Social.

VI
ABSTRACT
This paper is a study about social inclusion through activities that may contribute for the promotion of equal opportunities, considering the existing difference between people and stimulating their socialization. It is also an evaluation of standard behavior at the Praça da Liberdade (Freedom Square) as a leisure and tourism destination. The standard behaviors are described in eight behavior settings of the users’ activities. Both accessibility and inclusion are considerated in the analysis of the existing relation among three behavior settings elements: the diversity of people, the developed activities and the environment conditions. There are evidences of management actions in the Praça da Liberdade context to promote accessibility and inclusion. Enhance, although there is a great potential of developing the inclusive tourism at the place, due to its behavior settings variety, the private and public related institutions still do not take advantage of this potential.
Key Words: Leisure Activities, Tourism, Accessibility, Social Inclusion.

VII
LISTA DE FIGURAS
FIG 1 – Vista aérea do Entorno da Praça da Liberdade.
FIG 2 - HISTÓRIA: Festa de Inauguração de Belo Horizonte em 12 de dez de1897.
FIG 3 - HISTÓRIA: Praça da Liberdade em 1910, com as Secretarias de Educação e da Fazenda e no centro da Praça, o “Pico do Itacolomi”.
FIG 4 – HISTÓRIA: Vista Parcial da Praça da Liberdade em 1915, com as Secretarias de Educação e da Fazenda.
FIG 5– HISTÓRIA: Praça da Liberdade em 1920.
FIG 6 – HISTÓRIA: Desfile da cavalaria em 1939 e o Palácio da Liberdade.
FIG 7– HISTÓRIA: Vista da Praça da Liberdade em 1997.
FIG 8- Elementos da Praça da Liberdade e de seu entorno.
FIG 9- ACESSIBILIDADE: Pontos de Acesso à Praça.
FIG 10 – ACESSIBILIDADE: Ponto de travessia na Praça.
FIG 11 – ACESSIBILIDADE: Ponto de ônibus ao lado do Museu de Mineralogia.
FIG 12 – ACESSIBILIDADE: Faixa de pedestre na rua Cristóvão Colombo.
FIG 13 – ACESSIBILIDADE: Desgaste da grama do canteiro em local permitido para estacionamento.
FIG 14 e 15 – ACESSIBILIDADE: Vagas de estacionamento acessíveis.
FIG 16 - ACESSIBILIDADE: Menina com dificuldade de patinar na alameda central.
FIG 17- ACESSIBILIDADE: Pessoas se abrigando no coreto em dia de chuva.
FIG 18– ACESSIBILIDADE: Caminho aberto em meio à grama para se chegar à área do bebedouro.
FIG 19 – CONTEMPLAR: Contemplação de Escultura na Praça.
FIG 20– CONTEMPLAR: Pessoas observando evento na Praça da Liberdade.
FIG 21 – CONTEMPLAR: Áreas mais utilizadas para eventos na Praça.
FIG 22– CONTEMPLAR: Banheiro Químico instalado durante evento, na alameda central.
FIG 23 – CONTEMPLAR: Pessoas observando uma apresentação cultural na Praça da Liberdade.
FIG 24 - NAMORAR: Principais áreas utilizadas para o namoro na Praça da Liberdade.
FIG 25 – NAMORAR: Namoro no banco da Praça.
FIG 26 – NAMORAR: Casal sentado na alameda central.
VIII
FIG 27 - PASSEAR: Principais vias utilizadas pelos usuários da Praça da Liberdade.
FIG 28 – PASSEAR: Pessoas Passeando na Praça da Liberdade em grupos, com amigos e animais de estimação.
FIG 29 – PASSEAR: Pessoa idosa com cadeira de rodas e acompanhantes passeiam pela Praça.
FIG 30 – ENCONTRAR: Áreas utilizadas normalmente utilizadas para o encontro de namorados, famílias e jovens na Praça da Liberdade.
FIG 31 – ENCONTRAR: Encontro em família.
FIG 32– ENCONTRAR: Encontro entre amigos jovens.
FIG 33- ENCONTRAR: Encontro de diversos grupos de jovens.
FIG 34- CAMINHAR: Área mais utilizada para a caminhada.
FIG 35 – CAMINHAR: Pessoas caminhando e correndo na via mais externa da Praça.
FIG 36- CAMINHAR: Pessoas caminhando em piso descontínuo, ao se aproximar da alameda central.
FIG 37 – CAMINHAR: Mulher se alonga em um dos postes da Praça.
FIG 38 – BRINCAR: Principais Áreas Utilizadas para a brincadeira na Praça da Liberdade.
FIG 39- BRINCAR: Crianças brincando na área do coreto.
FIG 40 – BRINCAR: Pais brincando com seus filhos de bola no coreto.
FIG 41- BRINCAR: Diversidade de atividades convivendo com a brincadeira na Praça.
FIG 42 – DESCANSAR: Pessoa deitada em banco em meio ao tumulto de um evento.
FIG 43– DESCANSAR: Pessoas descansando sobre a sombra no busto de Bias Fortes.
FIG 44 - DESCANSAR: Disposição de bancos utilizados para o descanso na Praça da Liberdade.
FIG 45 – TRABALHAR: Disposição das Barracas de Vendedores Ambulante na Praça da Liberdade.
FIG 46 – TRABALHAR: Fiscais da Prefeitura em grupos durante um evento no fim de semana
FIG 47 – TRABALHAR: Pipoqueiros e vendedores de Bola nas proximidades do coreto.
FIG 48 – INCLUSÃO: Condição da Via da Praça da Liberdade, próxima à rua Gonçalves Dias.
FIG 49 - INCLUSÃO: Pessoas passando por via irregular.
FIG 50 – INCLUSÃO: Exposição de Estátuas Gregas na Praça da Liberdade, cercadas por correntes.
FIG 51 – INCLUSÃO: Deficientes Visuais tocando Estátua Grega do Museu do Louvre na Praça.
FIG 52 – Concentração de Atividades Espontâneas versus Atividades Formais na Praça.
IX
SUMÁRIO
1. INTRODUÇÃO................................................................................................................1
2. OBJETIVOS.....................................................................................................................4
3. METODOLOGIA.............................................................................................................5
4. REFERENCIAL TEÓRICO...........................................................................................8
4.1 Conceitos para se Discutir a Inclusão Social ...........................................................8
4.1.1 A Inclusão Social e o Desenvolvimento Inclusivo..............................................8
4.1.2 A Acessibilidade e a Deficiência como Problemas Sociais..............................10
4.2 Turismo e Lazer no Contexto Social ......................................................................15
4.2.1 Espaços de Lazer ...............................................................................................18
4.2.2 Políticas Públicas de Lazer ................................................................................20
4.2.3 A Praça como Espaço de Lazer..........................................................................21
4.3 Os Caminhos para a Inclusão ...............................................................................23
4.3.1 O Design Universal e seus princípios ................................................................26
4.3.2 Turismo Para Todos / Turismo Acessível..........................................................29
4.3.3 Turismo Inclusivo ..............................................................................................32
5. ESTUDO DE CASO.......................................................................................................36
5 .1 A Dinâmica da Praça da Liberdade......................................................................36
5.1.1 Apresentação.....................................................................................................36
5.1.2 Contexto Histórico.............................................................................................38
5.2 Contexto Atual.........................................................................................................49
5.2.2 A Praça e a Acessibilidade................................................................................50
5.2.1 Cenários da Praça da Liberdade........................................................................60
5.2.3 Reflexões a partir dos dados coletados: A Praça e a Inclusão...........................87
5.3 Tendências de Uso da Praça da Liberdade..........................................................94
6. CONCLUSÕES...............................................................................................................98
6.1 Considerações Finais.................................................................................................99
6.2 Recomendações para Próximos Estudos ................................................................100
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7. BIBLIOGRAFIA..........................................................................................................101
8. APÊNDICE...................................................................................................................106
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1. INTRODUÇÃO
Esse trabalho tem o intuito de investigar as relações existentes entre espaço de lazer e inclusão social tomando como base analítica um estudo de caso, a Praça da Liberdade. Desta forma, buscou-se conhecer padrões de comportamento daqueles que utilizam a Praça da Liberdade como equipamento de lazer; avaliando tais padrões encontrados sob uma perspectiva de inclusão social pela equiparação de oportunidades entre os indivíduos.
Os modelos de desenvolvimento adotados pela sociedade contemporânea até então, não têm se apresentado suficientemente capazes de gerar o bem-estar da população como um todo. Grupos em situação de vulnerabilidade como “os indígenas, os afro-descendentes, as mulheres, os idosos, as pessoas com deficiência1 e com outras características ou necessidades específicas, tais como as minorias étnicas, religiosas, sexuais e sociais em geral” (BIELER, 2006, p.1) têm sido excluídos sistematicamente da “participação plena na sociedade e do usufruto dos benefícios do desenvolvimento”. (BIELER, 2006, p.1). Deste modo, mesmo quando são tomadas ações que tentam reverter a atual realidade excludente, como medidas que permeiam a garantia da acessibilidade, tais ações não resolvem o problema da inclusão ao tentar solucioná-lo parcialmente, de forma linear e insatisfatória, sem abordar o problema em sua totalidade e sob uma perspectiva holística (GUIMARÃES, 2007).
A inclusão social abrange vários aspectos da sociedade, como o trabalho, a educação, a saúde e o meio físico. Contudo, deve-se considerar que é necessário abordar a acessibilidade física ao se discutir a inclusão, uma vez que a acessibilidade ao meio proporciona oportunidades de convivência entre pessoas que por vezes não possuem a possibilidade de interagir. Assim, a inclusão pela acessibilidade ao meio físico é a que será focada nesse trabalho, tomando como base de análise o ambiente da Praça da Liberdade.
Esse trabalho evoca ainda, a necessidade de se refletir sobre a importância da promoção de atividades de lazer inclusivas na atualidade. De acordo com Anderson (2003), promover oportunidades de recreação inclusivas permite com que pessoas participem em programas recreativos de sua escolha, baseadas no interesse, de forma que o processo de inclusão beneficie não só pessoas com deficiência, mas também todos os participantes. Dessa forma, programas inclusivos preparam grupos minoritários para uma vida integrada na sociedade, da mesma forma
1 A definição de deficiência leva em consideração os desajustes entre os recursos do meio e as habilidades de uma pessoa de se adaptar a esses recursos e pode ser encontrada na página 11.
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que prepara a sociedade a aceitar a diversidade individual.
Dentre as práticas inclusivas, o turismo inclusivo2 emerge em um contexto em que o mercado turístico por vezes tem insistido na segmentação, colaborando para o mascaramento das contradições sociais e da mercantilização da atividade turística. (GOMES, 2004). Assim, sob a pressão de grupos em desvantagem como pessoas com deficiência e pessoas idosas, surge a necessidade de se investir em um turismo que busque a convivência e a inclusão da sociedade através da utilização de conceitos como a acessibilidade ambiental, o Design Universal e o desenvolvimento inclusivo3, com o intuito de promover o bem-estar social e manter a qualidade de vida.
Os espaços de lazer permitem o encontro e a sociabilidade possuindo, deste modo, um grande potencial para a inclusão social e a convivência com a diversidade da população. Nesse sentido, a necessidade de se criar espaços coletivos de lazer em centros urbanos está cada vez mais em evidência, merecendo maior destaque dentro das políticas públicas urbanas.
Dentro da abrangência dos espaços de lazer, destacam-se as praças públicas, que muitas vezes vêm suprir essa carência por locais apropriados para atividades de lazer, apresentando funções diversas para a sociedade. Dentro dessas funções destaca-se o descanso e a contemplação da beleza paisagística proporcionada, o desenvolvimento de atividades de turismo e de lazer e principalmente a possibilidade de convívio e troca cultural.
Tomando como local de estudos sobre a base problemática apresentada, a Praça da Liberdade foi escolhida por ser considerada um importante atrativo turístico da capital mineira. Além disso, o local escolhido possui uma relação estreita com a história de Belo Horizonte, tendo assim, uma importância cultural, social e histórica que merece destaque em diversas áreas de estudo como a sociologia, a geografia, a arquitetura, o urbanismo e o turismo.
A importância desse trabalho está não só na discussão de uma forma de encarar atividade turística que seja capaz de englobar toda a sociedade de maneira mais justa e holística, mas atenta também para a necessidade de inclusão em equipamentos de convívio e lazer. Assim, pretende-se não por fim nas discussões sobre lazer, acessibilidade, inclusão e outras formas de se pensar a atividade turística, e sim abrir portas para que outros estudos sejam realizados nesse âmbito que
2 O conceito de turismo inclusivo considera a garantia de acesso universal, a igualdade de oportunidades e a equidade entre as pessoas; e pode ser encontrado na página 32.
3 Os conceitos e mais informações sobre Acessibilidade Ambiental, Design Universal e Desenvolvimento Inclusivo podem ser encontrados respectivamente nas páginas 12, 26 e 9.
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como dito anteriormente, se relaciona com as mais variadas áreas da sociedade atual.
Logo, no desenvolvimento do trabalho, ao avaliar o contexto histórico da Praça da Liberdade, são ressaltadas as funções desempenhadas bem como alguns cenários atuais da Praça, correlacionando esses cenários com a acessibilidade e inclusão no local. Também são avaliadas algumas tendências do uso da Praça da Liberdade e feitas sugestões para estudos complementares a esse. Portanto, esse trabalho contextualiza o exemplo da Praça da Liberdade enquanto um dos diversos equipamentos de lazer urbano em seu papel de espaço de lazer, na evidência de permitir ou não a inclusão e a prática do turismo inclusivo.
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2. OBJETIVOS
O objetivo principal desse trabalho é conhecer os padrões das relações entre três elementos presentes na Praça da Liberdade (condições do ambiente físico, atividades desenvolvidas e diversidade de pessoas) e então agrupar esses elementos em cenários de comportamento e relacionar os cenários, ainda, ao desenvolvimento do turismo inclusivo no local .
Fazem parte dos objetivos desse trabalho:
• Realçar o contexto histórico da Praça da Liberdade em que práticas e/ou comportamentos relativos ao seu uso, associados ou não à inclusão, determinariam a forma ou a função do local.
• Conhecer a dinâmica atual da Praça da Liberdade, observando os elementos do espaço, as relações existentes no local e as transformações em evidência, tendo como foco uma perspectiva de inclusão, lazer e turismo.
• Definir a diversidade do perfil e das atividades dos usuários da Praça da Liberdade, observando os diferentes cenários que podem ser encontrados no local.
• Avaliar as formas em que instituições governamentais e os organizadores de eventos, responsáveis pelo desenvolvimento de atividades formais no objeto de estudo, consideram a inclusão e a acessibilidade na Praça da Liberdade.
• Descobrir se existem atividades que remetem ao turismo inclusivo na Praça da Liberdade.
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3. METODOLOGIA
A fim de alcançar os objetivos propostos nesse trabalho, a metodologia utilizada foi composta por três etapas:
􀂃 pesquisa bibliográfica, seguida por ...
􀂃 visitas de campo no objeto de estudo e coleta dos dados necessários para a apresentação do estudo de caso e, por conseguinte a ...
􀂃 análise final que permitiu chegar às conclusões desse trabalho.
Durante a primeira etapa, foi feito um levantamento teórico sobre o turismo inclusivo e o turismo acessível bem como outros temas relacionados ao uso dos espaços e equipamentos de lazer. Foram pesquisados conceitos como “autonomia”,“barreiras”, “deficiência”, “mobilidade” e “acessibilidade ambiental” a fim de se entender melhor sua correlação com outros conceitos mais amplos como “inclusão social” e “desenvolvimento inclusivo”. Para tanto, embasou-se sobretudo em publicações dos autores GUIMARÃES; AGUIRRE et al; BIELER e MINISTÉRIO DA JUSTIÇA- CORDE.
Outra temática apronfundada na pesquisa bibliográfica diz respeito a espaços de lazer e turismo, consultados em GOMES. É feita uma breve diferenciação entre lazer e turismo, mas ambas são adotadas nessa pesquisa como atividades que permitem o convívio social e trocas culturais. O conceito de “cenários de comportamento” proposto por BARKER é utilizado como norteador para a avaliação da inclusão nos cenários de comportamentos encontrados no objeto de estudo.
A partir dos conceitos apresentados no trabalho, são discutidos dois tipos de atividade turística distintos, porém interligados e associados a um tipo de design inclusivo (o “Design Universal”): o “turismo acessível” que deve ser entendido como constituinte de um conceito de turismo mais desenvolvido e complexo, o “turismo inclusivo”, embasando-se principalmente em publicações de DARCY; PONS; GUIMARÃES, além de entrevistas com RAINS.
Após pesquisa documental, o embasamento teórico e a experiência vivenciada possibilitaram a avaliação das diferenças entre o turismo inclusivo e o turismo acessível, relacionando-os com usos dos espaços de lazer. O entendimento do conceito “cenário de comportamento” foi primordial para correlacionar espaços de lazer e as atividades desenvolvidas no espaço da Praça da Liberdade com o turismo inclusivo.
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A pesquisa documental permitiu conhecer melhor o objeto de estudo, a Praça da Liberdade, colaborando para o entendimento da importância, da história, e dos usos históricos do local, auxiliando finalmente, na compreensão do cenário atual. Foram pesquisados arquivos diversos contendo dados e fatos sobre a história e a utilização do local, entre eles revistas, jornais, livros e pesquisa bibliográfica.
Na segunda etapa, foi adotada como técnica da pesquisa de campo empírica, o estudo de caso, utilizando a Praça da Liberdade como exemplo. Como técnica de coleta de dados incluiu-se a observação durante visitas in locus na Praça da Liberdade que possibilitaram a realização dessa pesquisa exploratória. As visitas foram constantes e sistemáticas e contribuíram para o registro e a avaliação do problema no objeto de análise, permeando a questão da acessibilidade e inclusão no local. Assim, sugere Beato, deve-se manter um amplo e compreensivo registro de todos os detalhes relacionados com o objeto de análise. (BEATO, 2006, p.3).
Procura-se registrar observações sistemáticas de uma situação real, não construída. Os pesquisadores, num estudo através da observação, podem ou não interagir diretamente com os indivíduos pesquisados, dependendo do efeito que sua intervenção possa ter na opinião dos indivíduos estudados. (BEATO,2006, p. 3).
A visita de campo foi dividida em duas fases:
􀂃 visitas piloto e
􀂃 visitas para coleta de dados.
Durante as três primeiras visitas, buscou-se vivenciar o contexto da Praça da Liberdade, permitindo a aproximação do problema. Em todas as outras visitas procurou-se coletar dados que possibilitassem o embasamento para essa pesquisa.
As visitas constantes, fotos e registros auxiliaram na descoberta da diversidade dos cenários que compõem a Praça da Liberdade, na caracterização da utilização da Praça e na avaliação da relação da Praça com a inclusão. A Praça foi visitada regularmente, em horários e dias diferentes. Porém, buscou-se manter uma regularidade nessas visitas, que aconteceram tanto durante os dias úteis na semana quanto nos fins de semana, para comparar diferentes padrões de uso e freqüência de visitação. Todas as visitas duraram o mínimo de trinta minutos e foram registradas através de fotos e anotações. (ver apêndice - Programação das Visitas à Praça da Liberdade).
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Foi utilizada ainda uma técnica de interface direta entre a pesquisadora e as pessoas que freqüentam a Praça, que foram alvo de entrevistas exploratórias. Deste modo, o método de pesquisa foi qualitativo, sendo que a pesquisadora buscou fazer uma análise de conteúdo das entrevistas não estruturadas. As pessoas entrevistadas foram procuradas com o intuito de descobrir e/ou reforçar observações feitas durante o campo.
Também de cunho qualitativo, foram as entrevistas pré-estruturadas com o SESC-MG, Coordenadoria de Direitos da Pessoa Portadora de Deficiência (CDPPD) e Coordenadoria de Apoio e Assistência à Pessoa Deficiente (CAADE). (ver apêndice – Roteiro e Resumos das Entrevistas). Dessa forma, descobriu-se sobre as transformações e tendências de utilização desse espaço, observando como a questão da acessibilidade é abordada por instituições governamentais e organizadores de evento em atividades formais desenvolvidas na Praça, a exemplo dos eventos.
As entrevistas, o conjunto de informações obtidas e as visitas constantes à Praça, realizadas durante a primeira e segunda etapa contribuíram para o detalhamento, sistematização e para as relações apontadas no objeto de estudo, auxiliando na análise da dinâmica da Praça da Liberdade. Após a análise dos dados colhidos e da experiência no local, foram descritos oito cenários (contemplar, namorar, passear, encontrar, caminhar, brincar, descansar e trabalhar) sobre as atividades desenvolvidas na Praça da Liberdade, que auxiliaram na percepção da diversidade do perfil dos usuários da Praça.
Dois cenários norteadores (o cenário contemplar e o cenário caminhar) foram utilizados para relacionar os elementos da Praça e a inclusão no local. Diversas atividades espontâneas e formais desenvolvidas pelos usuários em diferentes locais da Praça (coreto, fonte, bancos, gramado, vias, etc.) também foram avaliadas nos contextos dos cenários norteadores de comportamento a fim de se fazer uma leitura geral sobre a inclusão no local. Assim, focou-se no estudo da inclusão na Praça da Liberdade a partir da observação do comportamento dos indivíduos que visitavam o local e as atividades que desempenhavam na Praça, contextualizados com as condições do ambiente e os principais elementos físicos do entorno da Praça da Liberdade.
A etapa metodológica final foi constituída pela análise dos dados e registros obtidos, relacionando–os com o embasamento teórico, resultando, então no alcance dos objetivos propostos e nas conclusões alcançadas durante esse estudo.
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4. REFERENCIAL TEÓRICO
4.1 Conceitos para se Discutir a Inclusão Social
4.1.1 A Inclusão Social e o Desenvolvimento Inclusivo
A sociedade atual se apresenta de forma estratificada e excludente na medida em que grupos distintos têm sido sistematicamente desconsiderados enquanto integrantes ativos dos setores econômico, social e político. Há muito descaso para com algumas minorias, que não são aceitas e nem participam ativamente da comunidade. Além disso, a noção de cidadania de cada ser humano é sufocada, devido às pressões vivenciadas no modelo capitalista de produção atual, e seus desdobramentos políticos na democracia, que acabam desconsiderando (ou simplificando) a diversidade existente no mundo. Dessa forma, torna-se claro que a sociedade como um todo ainda não chegou a um estágio de inclusão, e que tal situação é ainda mais alarmante em países como o Brasil.
A situação de pobreza e exclusão social atinge milhões de pessoas no mundo todo, impede o desenvolvimento humano e uma existência digna e com qualidade. Na América Latina e no Caribe esta situação atinge mais da metade de sua população. Esta situação de exclusão e pobreza, bem como a desigualdade, as doenças, a insegurança, a contaminação e a degradação ambiental e o desenho inadequado são perigos públicos, que afetam muitas pessoas e ameaçam a todas. (BIELER, 2006:4).
A inclusão se trata de um “Processo de equiparação de oportunidades pela alteração total e permanente de atividades, de serviços e de infra-estrutura de modo que o grupo esteja preparado para acomodar diferenças sobre uma base de igualdade a todos” (GUIMARÃES, 2007:17). Esse processo acarreta não só a equiparação nas oportunidades na vida das pessoas, mas pondera as necessidades individuais em relação ao coletivo, o que implica num planejamento que considera toda a comunidade e na adequação ambiental e física, através de recursos flexíveis. (GUIMARÃES, 2000).
A autonomia é a capacidade de cada indivíduo poder desempenhar escolhas ou decisões de acordo com seus desejos, inclusive nas relações sociais e no uso do ambiente construído, ocasionando uma experiência pessoal (GUIMARÃES, 1994). Assim, autonomia e independência são tidos como conceitos complementares uma vez que a independência aborda a relação com
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outros indivíduos enquanto que a autonomia abrange decisões de ordem pessoal sobre o controle em relações com o ambiente para alcançar objetivos.(GUIMARÃES, 1994, ___, 2000-1;___, 2000-2, ___, 2007).
Uma sociedade inclusiva pressupõe a garantia da liberdade individual, ou seja, a autonomia, para que as oportunidades sejam equiparadas, a fim de se compartilhar os recursos disponíveis.
O esforço para se atingir uma realidade inclusiva é proveniente de duas perspectivas: do indivíduo para o grupo e do grupo para o indivíduo. Portanto, os processos de socialização necessitam sofrer alterações estruturais direcionando solucionar os problemas entre indivíduo e ambiente de modo que cada pessoa possa exercer “o controle e a liberdade compartilhada sobre as condições de socialização a que estão sujeitos.” (GUIMARÃES, 2007:17).
Ao analisar a situação atual da sociedade fica evidente que o problema da inclusão merece uma maior atenção e destaque. É nesse âmbito que surge a idéia do “Desenvolvimento Inclusivo,” que vai além da idéia fragmentada de democracia, visando o bem não da maioria, mas de toda a população existente.
O conceito de “Desenvolvimento Inclusivo” abrange a idéia de conceber e implementar políticas e ações com o intuito de desenvolver os setores sociais e econômicos da população, de forma que tais medidas estão atreladas ao desenvolvimento humano através da promoção da autonomia e da dignidade do cidadão, em equilíbrio com o meio ambiente. O que significa dizer, que tais medidas devem ser tomadas independentemente da classe ou status social, idade, gênero, opção sexual, condição mental ou física, raça, religião de cada indivíduo, assim cada cidadão passa realmente a ser integrante da sociedade como um todo, sendo capaz de realizar com autonomia, atividades de seu cotidiano sem discriminação. (BIELER, 2006).
A “mobilidade física”, que pode ser tida como a capacidade de deslocar-se de um ponto a outro em um espaço físico, é um dos parâmetros que auxiliam na constatação da autonomia ou não nas ações de um determinado indivíduo em relação ao meio. Assim, “pessoas com mobilidade reduzida” (que têm limitada sua capacidade de se relacionarem e utilizarem o ambiente de forma temporária ou permanente) também devem ser consideradas ao se discutir a inclusão. A redução da mobilidade pode ser constatada em qualquer pessoa, como aquelas que carregam algum objeto, ou que utilizam de algum equipamento assistivo para se locomoverem, mas abrange também pessoas com deficiência física ou mental, idosos, gestantes e crianças.
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Segundo Bieler (2006), ao promover a diferença e apreciar a diversidade, o Desenvolvimento Inclusivo busca dar visibilidade a grupos que se encontram em situação de desvantagem ou vulnerabilidade, posicionando-os também nos programas e políticas públicas como um todo. Alguns grupos constatados como vulneráveis são aqueles com mobilidade reduzida, comunicação reduzida e problemas econômicos. Dessa forma, a abordagem do desenvolvimento inclusivo aceita a diversidade existente na sociedade e a transforma em uma oportunidade de mitigar alguns contrastes sociais.
Bieler afirma que a agenda global de desenvolvimento, que toma como base o conceito de desenvolvimento inclusivo, tem como eixo a promoção de estratégias amplas e gerais capazes de atender as necessidades humanas em todas as suas dimensões. Tal abordagem auxiliaria na superação da vigente atuação nos setores sociais, que se apresenta em uma escala pontual e compartimentada. (BIELER, 2006).
O desenvolvimento inclusivo toma em conta e potencializa a ampliação dos direitos e capacidades de cada uma das dimensões do ser humano (econômica, social, política, cultural) na sua diversidade e especificidade, com base na procura e garantia do acesso universal, da igualdade de oportunidades e da equidade. (BIELER, 2006:2).
Contudo, uma vez que o termo inclusão é muito abrangente, determinou-se aprofundar nesse trabalho o estudo da inclusão com ênfase na acessibilidade física, uma vez que a falta da mesma pode ocasionar barreiras ambientais que colaboram para a existência de ambientes que intimidam (GUIMARÃES, 1994; ___ 2007) e que excluem, contribuindo ainda mais para difundir o descaso com a diversidade e a desigualdade existentes no local de estudo.
4.1.2 A Acessibilidade e a Deficiência como Problemas Sociais
A Organização Mundial de Saúde define o que é deficiência a partir da visão médica (GUIMARÃES, 1994), que a relaciona com a perda ou a anormalidade de determinadas funções do organismo de um ser humano. Contudo, ampliar o conceito de deficiência e entender quais suas implicações na sociedade vai muito além do caráter de enfermidade. Com isso, a falta de acessibilidade para todos passa a ser vista atualmente como uma barreira no espaço em que se vive, carecendo de maior visibilidade e ação.
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Barreiras, para Aguirre (et al 2006), são representadas por qualquer construção humana que consciente ou inconscientemente exclui algum indivíduo que não possua as mesmas capacidades comuns de uma comunidade. “Por isso, suprimir ou eliminar obstáculos não significa só destruí-los ou impor sanções, mas trabalhar sobre as percepções e os valores das pessoas, basicamente fazendo conhecer o diferente, sua origem e transcendência.” (AGUIRRE et al, 2006:23)
Aguirre reforça que a idéia do diferente ainda é vista na sociedade atual de forma discriminatória. Ao ser levado em consideração que nenhum indivíduo é idêntico, presupõe-se que a diferença está representada então, naqueles indivíduos que são partes da maioria. Contudo, a maioria determina as normas de comparação entre os indivíduos da sociedade por serem mais frequentes em relação a um modelo; e assim, o frenquente é tido como nornal e o não-frequente como anormal. Isso está relacionado a diversas barreiras culturais que são percebidas, sejam elas de tipo físico ou tangíveis, criando um série de desajustes na sociedade, que só se tornará acessível ao eliminar barreiras de todo tipo.
O termo acessibilidade pode ser tido como um processo que “... se desenvolve a partir do reconhecimento social sobre deficiência como resultado do grau de maturidade de um povo para atender os direitos individuais de cidadania plena.” (GUIMARÃES, 2000-2; ___, 2007:3).
Aguirre (et al 2006), ressalta que a reabilitação de uma pessoa com deficiência seria mais eficaz ao se implementar destrezas e capacidades dentro de uma sociedade mais integradora e acessível, que fosse pensada para todos. Para tanto, são sugeridas a prevenção e a integração total de fatores que contribuam para a inclusão plena da sociedade. Nesse sentido, para a reabilitação da mesma, faz-se necessário propiciar a acessibilidade, oferecendo alternativas, equiparando oportunidades na vida humana e prevenindo aquilo que é tido como não-desejado.
É interessante ressaltar ainda, a diferença entre espaço que intimida e espaço que desafia. Para Guimarães (1994; 2007), um espaço que intimida pode causar frustrações e limitar a vivência de um indivíduo na medida em que não gera oportunidades de participação do mesmo com autonomia. O mesmo espaço físico, ao prover alternativas de escolha e possibilitar a decisão sobre como ajustar as habilidades pessoais e o desafio do indivíduo em relação ao ambiente, pode ser considerado um espaço que desafia. O espaço que desafia não impossibilita seu uso com desempenho e socialização, mas predispõe uma maior confiança em si próprio.
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A acessibilidade ambiental, que é focada nesse trabalho, é composta por tudo aquilo que é necessário para a promoção de adaptação entre o indivíduo e às condições ambientais do espaço edificado. (GUIMARÃES, 2007). Assim, a acessibilidade completa ao meio físico é fundamental para que pessoas com deficiência tenham a oportunidade de participarem da sociedade com autonomia e qualidade de vida.
Pensar em uma rota acessível aos ambientes é então, um dos meios de se proporcionar a acessibilidade ambiental. A rota acessível é constituída por um circuito de passagens conectadas e elementos da acessibilidade que permitem a circulação externa e interna no meio edificado. Em uma rota acessível é necessário se pensar em alternativas acessíveis desde a chegada até a saída do ambiente, através de qualquer meio de transporte utilizado, incluindo a utilização do espaço de maneira conveniente e segura, utilizando de recursos de circulação horizontal e/ou vertical sem que a pessoa tenha que passar por degraus. (GUIMARÃES, 2007).
De acordo com Guimarães (1999, 2007) os elementos externos de uma rota acessível são compostos por: pontos de ônibus, pontos de táxi, embarque/desembarque, travessia de pedestres em ruas, estacionamento, sinalização e entradas. Já os elementos internos abrangem a sinalização, vestíbulos, interligação entre desníveis, circulação, cômodos, instalações sanitárias, sala de apresentação e programa de emergência. Assim, “ ...a rota acessível se consolida pela escolha do usuário sobre o acesso mais cômodo, isto é, a percepção e o entendimento pessoal sobre condições de conforto peculiares a cada um.” (GUIMARÃES, 2007:16).
Para Guimarães, acessibilidade e deficiência possuem uma relação muito próxima, podendo se desenvolver de forma benéfica, uma vez que a acessibilidade envolve “um processo de transformação do ambiente e de mudança da organização das atividades humanas que diminui o efeito de uma deficiência.” (GUIMARÃES, 2000:2).
A acessibilidade permite que todo um povo aprenda a se preparar para tais mudanças pois ela dá a chance de convívio entre as pessoas que antes viviam em mundos isolados e distantes. O ensinamento é natural pela simples troca de experiências entre iguais, onde uma pessoa portadora de deficiência não depende de outra pessoa aparentemente sem deficiências para poder decidir como usar os recursos do espaço à sua volta, e que estão disponíveis para ambos na medida certa. De outro modo, a pessoa portadora de deficiência aprende que não precisa esperar a ajuda de outros para desempenhar seu papel como cidadão, como trabalhador, como amigo e companheiro, como pai ou mãe de família, como pessoa madura que deve chegar a ser. (GUIMARÃES, 2007:7).
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Falou-se da deficiência como um problema de saúde do indivíduo, todavia, é possível ampliar esse conceito na medida em que se entende que deficiência “é resultante do desajuste entre as características físicas das pessoas e as condições onde elas atuam” (GUIMARÃES, 2000:1). A partir desse pretexto, a deficiência, então passa a ser considerada um problema social, não sendo de competência exclusiva dos familiares. De acordo com Horno (1974) citado por Aguirre (et al 2006), o problema social é uma condição que afeta de maneira inconveniente um número significativo de pessoas, carecendo de uma ação social coletiva para a sua correção.
Aguirre (et al 2006) justifica a necessidade de se investir na resolução do problema da acessibilidade argumentando que o que realmente está em questão é a dignidade a ser desfrutada pelo ser humano, não interessando o valor econômico, nem a quantidade de pessoas afetadas na sociedade atual. Assim, “...a deficiência, como problema da comunidade, é uma condição que reconhece uma origem social, implica situações criadas pelo homem ou que podem ser modificadas por ele, (excluindo assim o natural e o sobrenatural).” (AGUIRRE et al, 2006:18).
Para Bieler, (2006) uma vez que a deficiência resulta da interação de limitações diversas (físicas, mentais ou sensoriais) com o ambiente, a mesma só se concretiza quando uma pessoa tem de enfrentar barreiras, sejam elas físicas ou sociais. Assim, a deficiência está intimamente ligada à organização social, podendo não ser extremamente dependente das características individuais em si. Conseqüentemente, segundo Ferreira (2007), a deficiência física deixa de ser uma característica específica de um grupo de pessoas, dependendo unicamente da relação entre a pessoa e o meio.
Em termos econômicos, a deficiência é uma variável endógena à organização social.4 Isso quer dizer que a definição de quem tem ou não uma deficiência não depende tanto das características pessoais dos indivíduos, mas também, e principalmente, do modo como a sociedade onde vivem organiza seu entorno para atender à população em geral. (BIELER, 2006:2).
Dessa forma, passa-se a considerar a deficiência como parte do ciclo de vida do indivíduo, pois, uma vez que a deficiência resulta dos diferentes estágios de funcionamento ou mobilidade de um indivíduo e sua interação com o meio, percebe-se que qualquer pessoa pode estar sujeita a vivenciar uma barreira ambiental em sua vida.
4 Grifo do autor.
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Bieler (2006) cita exemplos de situações que poderiam acontecer no ciclo de vida de uma pessoa:
1 um bebê que necessita andar no colo ou num carrinho empurrado por alguém;
2 uma criança que não alcança o botão mais alto do elevador;
3 alguém temporariamente acidentado buscando subir degraus;
4 uma mulher em estado de gravidez avançada tentando tomar um ônibus;
5 um cidadão analfabeto precisando de uma informação na Internet;
6 um grupo de estrangeiros que não falam o idioma local tentando se comunicar;
7 alguém que não consegue ler o texto escrito em corpo 6, na bula do remédio
8 uma senhora idosa com artrite, que não consegue abrir a porta de maçaneta redonda; (BIELER,2006:3).
Entretanto, outra preocupação atual que permeia a questão da acessibilidade é o crescimento da população idosa, e o aumento da expectativa de vida da população. Segundo Darcy (2006) de acordo com dados do Australian Bureau of Statistics, 2004, uma pessoa de sessenta e cinco anos é 14 vezes mais sujeita a ter uma deficiência do que quando possui quarenta anos.5 Isso implica em uma série de mudanças tanto na economia, como na cultura e ações da sociedade.
O grupo no qual se identifica o maior crescimento de deficiências é o da Terceira Idade, particularmente aqueles com 70 anos ou mais. O aumento da expectativa de vida da população, não mantém as pessoas jovem por mais tempo mas, ao contrário, prolonga o envelhecimento e suas conseqüências naturais. A perspectiva mundial, ao menos nas populações menos afetadas pela pobreza, é de que se passe a viver 20 a 30 anos em situação de velhice e, portanto, em situação de deficiência. (BIELER,2006:3).
Deste modo, as barreiras enfrentadas pela população geram deficiências que influenciam nas ações humanas, representando um problema social que demanda mudanças sociais coletivas, seja no âmbito das idéias ou das ações, que envolvem a mobilização, o planejamento, a legislação, e vários outros aspectos que se relacionam com a problemática. Incontestavelmente, conhecer e discutir o assunto são passos primordiais a serem tomados, podendo contribuir para manejar os recursos necessários e difundir as ações que possam solucionar ou ao menos amenizar o problema da acessibilidade.
Contudo, uma das idéias que reforça a necessidade de investimento na acessibilidade ambiental é que ao promover melhorias em ambientes físicos, tornando-os acessíveis, os beneficiados não serão apenas pessoas com deficiência (mesmo que todos estejam sujeitas a ela), nem os idosos; e sim toda a população como um todo, que poderá usufruir de uma melhor
5 Fonte: Darcy, Setting a Research Agenda for Accessible Tourism, 2006:2.
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qualidade de vida. Dessa forma, Ferreira (2006) reafirma a necessidade de se investir na sensibilização da sociedade sobre a questão da acessibilidade a fim de se alcançar tolerâncias e mudanças sociais.
Já de acordo com Guimarães (2007), as estratégias para a implantação da acessibilidade devem envolver um pensamento holístico, que leva em consideração a relatividade dos processos, de forma que tais estratégias adotem um efeito prolongado na construção e gerenciamento do espaço, além de flexibilizar os recursos ambientais. Dessa forma, pode-se produzir ambientes accessíveis e atingir uma mudança a ser consolidada na “mutabilidade cíclica, as atividades, comportamentos, atitudes e valores culturais.” (GUIMARÃES, 2007:13).
Finalmente, discutir formas de se atingir a acessibilidade se torna fundamental na medida em que ela é indispensável para o alcance de uma sociedade inclusiva. Apesar de não se constituir do único aspecto a ser desenvolvido para a evolução da sociedade, nem se limitar ao caráter ambiental, a acessibilidade atinge todas as pessoas, permitindo trocas de experiências sociais e a preparação para a mudança das idéias e ações da população. Por isso, Guimarães (2000) sugere que o direito da acessibilidade seja tido como um dos valores da vida, para que se torne uma realidade e reforce a abrangência da inclusão social.
4.2 Turismo e Lazer no Contexto Social
O turismo e o lazer são práticas que têm sido evidenciadas no modelo produtivo capitalista, de forma que muitas vezes elas são constituídas por atividades desenvolvidas por uma população que foge da rotina em busca do novo, de descanso e de experiências culturais.
De acordo com o site do Ministério do Turismo6, entende-se por turismo:
"... o movimento de pessoas, por tempo determinado, para destinações fora de seu local de residência, e as atividades realizadas durante o tempo de permanência nas localidades visitadas" (CONGRÉS DE L'AIEST apud MINISTÉRIO DO TURISMO).
6 Disponível em visitado em 30 de agosto de 2007.
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Para o IBGE (2006):
A Organização Mundial de Turismo – OMT define o turismo como o conjunto de atividades que as pessoas realizam durante suas viagens e estadias em lugares distintos a seu entorno habitual por um período de tempo inferior a um ano, com fins de lazer, negócios e outros motivos não relacionados com o exercício de uma atividade remunerada no lugar visitado (CUENTA apud IBGE, 2001:14).
Nessa, segunda definição tem-se o lazer como uma das finalidades turísticas, estando diretamente relacionado a uma atividade cultural. Para Gomes (2004) o lazer é compreendido por diversas manifestações culturais, entre elas a viagem, o passeio, a brincadeira, o jogo, o esporte, a arte e suas diversas formas (teatro, cinema, escultura, pintura, literatura), e também o ócio.
Não é prioridade desse trabalho, aprofundar nas semelhanças e diferenças sobre atividades de lazer e o turismo, entretanto, a característica do deslocamento é a que mais deixa evidente a diferenciação da prática turística em relação ao lazer. Na verdade, ambas as atividades são distintas, apesar de poderem se entrelaçar, ou seja, uma das ramificações do turismo é composta pelo turismo de lazer; enquanto que o lazer pode estar ou não ligado a uma atividade turística. Por exemplo, um turista pode participar de um evento musical na Praça da Liberdade, mas os moradores de Belo Horizonte estariam participando apenas de uma atividade de lazer e não de uma atividade turística.
Gomes (2004) também cita que o lazer é construído socialmente no contexto em que se vive, abordando quatro elementos inter-relacionados: o tempo, não se limitando aos períodos como férias e fins de semana, que foram institucionalizados para o lazer; o espaço-lugar, que extrapola o espaço físico uma vez que os sujeitos se apropriam do espaço a fim de transformá-lo em ponto de encontro e de convívio social; as manifestações culturais; que se apóiam na cultura como opção de diversão, desenvolvimento e/ou descanso; e as ações, que são fundadas no lúdico.
Outra característica importante do lazer é estar ligado também a “... atividades voluntárias, prazerosas, liberatórias, submetidas à escolha pessoal7.” (CORDE, 1998: 104).
Pode-se adotar uma classificação de lazer a partir do interesse cultural central de cada atividade podendo ser: física, manual, intelectual, artística, social e turística. Segundo Melo (2004), essa classificação por interesses culturais do lazer, foi proposta pelo sociólogo francês
7 Grifo do autor.
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Joffre Dumazedier, buscando encontrar o elemento principal que motivaria os indivíduos a praticar tais atividades, podendo auxiliá-los no desenvolvimento físico ou social.
Assim, as atividades físicas englobam o esporte em geral, desde práticas leves a fatigantes, em que a motivação principal é o prazer da movimentação do corpo, compreendendo uma ampla variedade de possibilidades lúdicas. As atividades manuais são motivadas pela manipulação de produtos e objetos, abrangendo desde a jardinagem até a costura, a culinária e outros hobbies. Já as atividades artísticas podem ser praticadas ou vivenciadas pelos indivíduos que são conduzidos pela experiência estética que é ocasionada, sendo compostas pela dança, teatro, cinema, literatura, entre outros. As atividades intelectuais, como jogos, palestras e cursos, enfatizam o ato de raciocinar; enquanto as atividades sociais proporcionam o encontro entre indivíduos, podendo ser citadas as festas, os espetáculos e a participação em espaços de convivência. Por fim, a atividade turística, além de propiciar a quebra da rotina temporal ou espacial, pode promover o encontro entre os indivíduos, trocas culturais, o contato com o novo, até mesmo a valorização do local onde vive o indivíduo.
Contudo, Gomes (2004) coloca duas importantes características do lazer que se assemelham ao turismo: ambas as práticas são ligadas diretamente com o contexto, além disso, as duas possuem paradigmas que podem refletir a sociedade excludente em que se vive.
(...) o lazer não é um fenômeno isolado, pois está em franco diálogo com o contexto. Por um lado, o lazer pode contribuir para o mascaramento das contradições sociais, mas por outro, pode representar uma possibilidade de questionamento e resistência à ordem social injusta e excludente que predomina em nosso meio. (GOMES, 2004:125).
Proni (2004) afirma que o lazer e o turismo são apontados pelos gestores de políticas públicas e economistas “...como atividades importantes para dinamizar o desenvolvimento local e para a geração de emprego e renda em âmbito local.” (PRONI, apud GOMES, 2004:.209). Isso demonstra que além de uma importância social, que muitas vezes é colocada em segundo plano, atividades como o turismo e lazer também possuem expressiva importância econômica.
Segundo Rodrigues (2001), o turismo é a atividade econômica que mais se expande no mundo, tornando-se uma atividade importante do ponto de vista econômico e cada vez mais diversificada em relação a seus produtos turísticos a fim de atender a demanda turística, além dos anseios, exigências e necessidades dos consumidores.
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Sobre a causa desse desenvolvimento da atividade turística tem-se:
Acompanhando o desenvolvimento das formas de produção material expandem-se enormemente as formas de produção não-material e, consequentemente, do consumo não-material, como lazer e turismo, produtos criados e ampliados pela sociedade de consumo de massa. (RODRIGUES, 2001:64).
Assim, as características sociais do turismo merecem maior atenção, por se tratar de uma atividade do setor de serviços que engloba diversos grupos sociais com necessidades diversas e que pode propiciar vivências de momentos de lazer pela sociedade, podendo contribuir para o desenvolvimento do ser humano, da solidariedade, do convívio e da cultura de uma comunidade.
4.2.1 Espaços de Lazer
Tomando como base que tanto o lazer quanto o turismo são atividades que estão essencialmente vinculadas ao espaço e ao tempo para que sejam de fato realizadas, buscou-se abordar, então, a apropriação do espaço, que pode ser constituída a partir de um âmbito geográfico, ao se desenvolver essas atividades.
Segundo Cunha, 2000, “o espaço geográfico não é só produzido, mas também produz. Ele não é só reflexo de determinadas relações sociais, mas influencia decisivamente estas relações.” (CUNHA, 2000:8).
Barker (1987) desenvolve noções sobre expectativas psicológicas de comportamento que estão implícitas no meio e que definem as relações existentes no espaço. Tais relações podem se dar entre pessoa, ambiente e atividade, construindo, então, os “cenários de comportamento”. Assim, é importante existir uma forma de diferenciação dos cenários de comportamento, reconhecendo que em qualquer organização formal ou informal em um espaço, como uma casa de família existe um sistema de atividades que refletem as motivações, atitudes, conhecimento e imagens do ser humano sobre o mundo.
Os cenários de comportamento são definidos por Barker como uma estável combinação entre atividade e lugar, considerando uma atividade recorrente que envolve um padrão de comportamento, um layout particular do meio, e uma relação congruente entre a atividade e o ambiente em um determinado período de tempo. Assim, estudos sobre padrões de movimento e
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comportamento mostram a tremenda diversidade das atividades humanas e os padrões os quais o ambiente é utilizado. (BARKER apud LANG, 1987).
Para compreender as relações existentes nos espaços turísticos e de lazer dentro de cada contexto em que está imerso, é necessário ressaltar que o espaço também está envolto por uma dinâmica global, onde há pressões globais e locais. Ou seja, ao analisar um espaço é preciso levar em conta não só as especificidades de determinado local, e sim, englobar a situação econômica, social e política vivenciada atualmente, dimensionada em um contexto globalizado. Nesse sentido, ao aceitar essa afirmação, entende-se melhor a complexidade do espaço e o uso que se pode fazer dele.
“...o espaço em que vivemos é social, é político, é econômico, uma vez que as relações de poder e de controle que se estabelecem sobre ele acabam determinando não apenas o desenho, mas o uso que se faz dele.” (PELLEGRIN apud GOMES, 2004:74). Contudo, um mesmo espaço, além de possuir um conjunto de relações e forças, pode conter diferentes atividades, o que conduz a se pensar nos cenários de comportamento existentes no local. Assim, um mesmo espaço pode possuir classificações diferentes (sendo turístico, de lazer, urbano, de conservação, entre outros) e suportar diversas atividades concomitantemente ou não. Levando em conta essa multiplicidade do espaço, faz-se necessário nesse estudo, a associação entre espaço e lazer, que envolve um leque de atividades desse âmbito.
Pellegrin (2004) define os espaços de lazer como lugares os quais são desenvolvidas atividades, ações, programas e projetos de lazer de um modo geral. O termo espaço de lazer também pode ser encontrado para caracterizar um equipamento específico de lazer. Assim, o termo equipamento de lazer está associado a qualquer edifício ou instalação que sedia eventos e atividades de lazer como um todo, enquadrando-se nessa categoria praças, parques, clubes, museus, centros culturais e outros equipamentos, sejam eles públicos ou privados. Nesse sentido, alguns espaços de lazer também podem desempenhar a função de espaço turístico, como é o caso de alguns atrativos turísticos a citar os museus, praças, locais para eventos, entre outros.
O espaço de lazer possibilita a promoção da troca cultural, funcionando como “espaço de encontro, de convívio, do encontro com o ‘novo’ e com o diferente, lugar de práticas culturais, de criação e de vivências diversas, no que diz respeito a valores, conhecimentos e experiências” (PELLEGRIN apud GOMES, 2004:74). Essas características são validas também para os espaços
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turísticos e merecem ser destacadas como espaços potenciais para se desenvolver atividades inclusivas.
Para Pellegrin (2004), ao mapear os equipamentos ou espaços de lazer de um centro urbano, pode-se identificar com clareza os contrastes que fazem parte do contorno da cidade moderna, como a especulação imobiliária e a falta de coesão entre as diversas redes de equipamentos. Deste modo, deve-se considerar a relação existente entre equipamentos de lazer e outras redes de equipamentos, como o transporte e habitação, por poderem estarem diretamente relacionados ao uso daquele espaço. Por exemplo, se um espaço de lazer não possui uma rede de transporte entre um bairro e o equipamento de lazer, é possível que menos pessoas daquele local freqüentem o espaço. Por outro lado, a população que reside próxima ao local está mais propícia a utilizar aquele mesmo espaço. No caso da Praça da Liberdade, essa afirmação pode ajudar a justificar o perfil dos usuários da Praça, que se localiza em um bairro nobre de Belo Horizonte. Logo, mais uma vez se torna evidente a correlação entre espaço e sociedade, assim com sua ideologia, concepções e história:
Uma vez que o espaço está intimamente ligado à política, parece oportuno deixar claro que o trato com o espaço de lazer na elaboração e implementação de uma política pública dependerá necessariamente dos valores com os quais se trabalha, das concepções de homem, de mundo e de sociedade que se tem. Nesse sentido, é necessário compreender as conexões históricas e ideológicas do espaço de lazer com o espaço de modo geral e com a sociedade. (PELLEGRIN apud GOMES, 2004:75).
Portanto, diante da forte relação entre o espaço e o contexto vivido pela sociedade, que necessita de espaços de sociabilidade para vivenciar situações de trocas culturais e desenvolver diversas atividades, é autêntica a necessidade dos espaços de lazer serem considerados nas políticas públicas urbanas.
4.2.2 Políticas Públicas de Lazer
As políticas públicas de lazer se tornam essenciais na medida em que há uma necessidade da população de utilizar espaços coletivos de lazer, além do lazer se constituir de um direito do cidadão brasileiro.
O Brasil é historicamente repleto de injustiças e problemas sociais que reduzem o acesso à cidadania plena. Um desses problemas a serem enfrentados é a não garantia dos direitos dos
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cidadãos estabelecidos por lei. São vários os problemas socioeconômicos que devem ser tratados pelo governo para garantir os direitos sociais: pobreza, fome, carência de moradia, inacessibilidade ambiental, inclusão social, e é justamente no meio urbano que esses problemas se tornam mais aparentes e muitas vezes mais graves. Todavia, Amaral (2004) afirma que o lazer acaba se tornando uma das últimas prioridades quando se trata de políticas públicas urbanas e de promoção social.
Para que se entenda a expressiva relação existente entre política de lazer e sociedade, é necessário compreender também a que essa política se propõe. Assim, uma política de lazer “é fruto da compreensão e assunção de determinada filosofia a qual interpreta a sociedade e as relações que nela se estabelecem” (BRAMANTE apud GOMES, 2004:186.), e a partir dessa compreensão que são determinados alguns princípios que visam gerar diretrizes orientadoras.
As políticas públicas podem colaborar para o desenvolvimento social da sociedade em geral, sendo que o poder público (nos âmbitos municipais, estaduais e federais) deve contribuir de diversas maneiras, através da legislação específica, a fim de definir parâmetros e funcionamento de atividades de lazer; e através de incentivo e promoção de atividades inclusivas. Assim sendo, o poder público tem de fato um papel importante no auxílio para a promoção de uma sociedade inclusiva, apesar de não ser o único responsável por promovê-la.
Nesse sentido, Amaral (2004) destaca uma tendência relativa ao campo do lazer, em que o Estado se desresponsabiliza pelas políticas públicas diretas, mas estabelece leis de incentivo fiscal se tratando de investimentos diretos em empreendimentos privados. Essa tendência modifica não só as relações de uso e gerenciamento dos espaços urbanos, em que o poder privado influencia cada vez mais nas ações realizadas, mas também estabelece novos papéis do setor privado em relação às práticas de lazer, que também deve contribuir para a garantia de alguns direitos dos cidadãos.
Pode-se tomar como exemplo de pareceria entre poder público e privado, a própria Praça da Liberdade, que desde 1991 tem sua manutenção e genrenciamento feitos pela empresa MBR. Isso demonstra a delegação de poder sobre as decisões relativas ao uso de um espaço urbano, coletivo e público a uma instituição privada, que detém ainda poder sobre algumas ações a serem desenvolvidas na Praça, modificando as relações existentes no espaço urbano de Belo Horizonte.
No âmbito de lazer, destaca-se a utilização de espaços coletivos pelo setor público-privado para a realização de eventos e de práticas sociais relacionadas ao lazer, principalmente no
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meio urbano. Um dos equipamentos coletivos de lazer utilizados pela sociedade que merece destaque é a Praça, que será discutida no próximo tópico.
4.2.3 A Praça como Espaço de Lazer
Tendo em vista a diversidade de atividades e de espaços relacionados ao lazer, as praças se constituem por apenas um dos inumeráveis espaços que podem ser utilizados para o desenvolvimento da atividade. Porém, destaca-se o uso público desse espaço, que se constitui como importante fator de organização urbano repleto por relações humanas de força e de poder.
Atualmente, segundo Pellegrin (2004), um dos aspectos dessa organização espacial das cidades é que essas apresentam cada vez menos espaços vazios e ou equipamentos específicos a serem utilizados pela população. Ao se mapear os equipamentos de lazer de uma cidade é possível apontar contrastes diversos como áreas de fácil ou difícil acesso, áreas com diversos equipamentos e áreas sem equipamentos, equipamentos bem conservados e outros em mal estado de conservação, equipamentos subutilizados ou superlotados, entre outros.
Contrastes socioeconômicos enfrentados pela sociedade atual como a falta de segurança e a má distribuição dos equipamentos também são refletidos na utilização do espaço urbano, podendo-se citar a valorização dos shoppings centers em detrimento de espaços públicos da cidade e a demanda por empreendimentos públicos ou privados capazes de permitir a prática de atividades relacionadas ao lazer.
No entanto, quando o objetivo é a inclusão, os espaços públicos merecem destaque. “As ruas e praças, as calçadas e os parques públicos, são ambientes propícios à implantação de programas de lazer para todos.” (CORDE, 1998:110). Isso significa dizer que alguns equipamentos de lazer, possuem grande potencial e importância no desenvolvimento social, sobretudo, na possibilidade de contato e inclusão que é gerada.
Um desses espaços ou equipamentos de lazer de grande importância coletiva no espaço urbano são as praças, por proporcionarem o encontro, trocas culturais, o turismo e o lazer. As praças podem possuir diversas funções dentro da sociedade: a função territorial, ao destacar, por exemplo, um local de poder público, ou de concentração de elementos urbanos; a função paisagística e estética, compondo um encontro entre belezas naturais e construídas em um determinado espaço; a função econômica, como é o caso de praças de mercados e feiras; a função
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turística, funcionando como atrativo turístico da cidade devido a sua beleza, história e peculiaridade, dentre outras funções, sendo que as praças podem até mesmo organizar o trânsito ou simplesmente servir com um espaço vazio ou potencial para o uso diverso.
Contudo, destaca-se nesse trabalho a função social das praças urbanas, por se tratarem de espaços que promovem a sociabilidade. São, portanto, locais propícios para o desenvolvimento de atividades de lazer e culturais diversas, descanso, fuga da rotina, turismo e ócio.
Seguramente, a praça é a primeira criação intencional de um espaço urbano. Espaço que se abre no tecido das cidades e para o qual convergem ruas, avenidas, pessoas e acontecimentos [...] continente de inúmeros e variados símbolos urbanos e talvez em decorrência de do seu próprio significado, as praças são espaços coletivos que se abrem aos acontecimentos, registrando transformações políticas, sociais e econômicas. (ROSA apud SILVA, 2005: 92).
A citação acima aponta para a dinamicidade dos espaços urbanos, que estão em constante transformação. Deste modo,

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