Estolamos by Marcelo Rubens Paiva

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For those who read Portuguese here is a piece from the Estado de São Paulo by MARCELO RUBENS PAIVA

Quando você escutar no aeroporto aquela vozinha estridente anunciar dos alto-falantes "priorizamos o embarque de passageiros com dificuldades de locomoção", não liga, não, nem fique com ciúmes, é charminho do pessoal do solo, brincadeirinha, trechos de uma sátira. Já há um tempo não embarcam mais os apelidados de prioridade antes dos demais. Vamos juntos com a boiada.

Quando você escutar no aeroporto aquela vozinha estridente anunciar dos alto-falantes "priorizamos o embarque de passageiros com dificuldades de locomoção", não liga, não, nem fique com ciúmes, é charminho do pessoal do solo, brincadeirinha, trechos de uma sátira. Já há um tempo não embarcam mais os apelidados de prioridade antes dos demais. Vamos juntos com a boiada.

Clima de "seja o que Deus quiser" nos aeroportos brasileiros. E quem reclama? As promoções e os preços baixos, metas do governo Lula, corrompem nossa indignação e silêncio e abrem o mercado para um consumidor feliz só de estar voando, sem se importar com a goiabinha e salgadinho de bordo ou com a falta de travesseiros e cobertores, que sumiram dos aviões, reparou?

Só um cara rodou a baiana, digo, a cadeira. O músico Marcelo Yuka se queixou à Anac (Agência Nacional de Aviação Civil, que nem site tem). Passou por constrangimentos num vôo entre Rio-São Paulo. A empresa aérea não o embarcou antes. Quando chegou ao destino, surpresa: sua cadeira de rodas não fora despachada. Para completar, a cadeira emprestada pela companhia desmontou quando o sentaram nela.

É a terceira vez que o ex-baterista do Rappa tem problemas com companhias aéreas. Eu perdi a conta. Uma dessas companhias perdeu a roda da minha cadeira de rodas. Uma outra perdeu a própria em Nova York, encontrada um dia depois. A TAM, que já foi um modelo, me esqueceu outro dia no meio da pista de Congonhas. Sério. Fui na van, enquanto os outros passageiros foram no ônibus. Chegamos ao mesmo tempo. O motorista me deixou na pista e me informou que eu seria embarcado depois dos passageiros. Esperei a fila subir a escada, vi as portas se fecharem. Os motores foram acionados. Acenei pateticamente para o piloto. O avião se foi, e fiquei ali parado. Pensei em ir atrás do avião, mas ele tinha mais aerodinâmica. E prioridade.

No passado, não havia padrão para embarcarem uma pessoa deficiente. Subíamos escadas no colo de pilotos e atendentes. Às vezes, passageiros ajudavam. Eventualmente, rolávamos as mesmas abaixo, com funcionários, aeromoças, cartões de embarque e radinhos portáteis.

O sindicato dos aeroviários reclamou. Depois de muitos strikes, decidiram que os funcionários da Sata (aqueles que embarcam as malas) deveriam nos carregar, com as mãos sujas de graxa ou não. Era aconselhável um deficiente não viajar de roupa branca.

No fim dos anos 80, no auge da mobilização dos movimentos pelos direitos dos portadores, interviemos e exigimos um padrão baseado nas regras internacionais da Convenção de Varsóvia (de 1929), Convenção de Chicago (de 1944), que normatiza as regras de transporte aéreo internacional, FAA (Federal Aviation Administration) e Iata (lnternational Air Transport Association).

Uma entidade de deficientes, o CVI-RJ (Centro de Vida Independente), treinou funcionários das três companhias aéreas de então, Varig, Vasp e Transbrasil.

Diferentemente do que a maioria pensa, não viajo na minha própria cadeira. E se eu quiser ir ao banheiro, há uma cadeira portátil nos aviões. Recomenda-se: o embarque do deficiente deve ser efetuado antes dos demais; ele vai na própria cadeira de rodas até a porta ou escada da aeronave; lá, é transferido para uma cadeira especial, que sobe escada; uma cadeira de rodas comum não passa pelo estreito corredor de um avião, por isso, para o embarque, é preciso uma cadeira com rodas menores; dois funcionários treinados pegam o passageiro, um nas costas e outro nas pernas, cruzam seus braços para não machucá-lo, e atam à cadeira menor; o mesmo procedimento deve ser feito para transferi-lo para o assento do avião, geralmente na primeira fila.

Estabeleceu-se um parâmetros para que a legislação fosse cumprida, garantindo o pleno direito de ir e vir de pessoa portadora de deficiência, baseado em artigos da Constituição, da Lei 7.565/86 do Código Brasileiro de Aeronáutica, da Lei 7.853/89, que "reitera a responsabilidade do poder público com relação à pessoa portadora de deficiência e dispõe sobre seu bem-estar pessoal no transporte e em seu acesso", e do Decreto 914/93, que cria a Política Nacional para integração da Pessoa Portadora de Deficiência.

Algumas companhias fizeram mais. A Varig criou em alguns aeroportos uma salinha especial de atendimento às pessoas deficientes. Fazia o check in, embarcava a mala, oferecia até lanchinho. Só não rolava massagem nem troca de figurinhas de álbuns da Copa. Comprou um Ambulift, carro-elevador que tem em todos os aeroportos europeus, que sobe pela porta de serviço para embarque de cadeiras de rodas.

As três companhias treinadas faliram. As novas não têm padrão, seus funcionários não foram treinados e pelo visto não há interesse, já que a falência das anteriores leva a crer que o serviço deva ser nivelado por baixo, e os custos, reduzidos.

A Conferência Nacional de Aviação Comercial, com a participação dos segmentos da indústria de transporte aéreo, liberou as tarifas aéreas, abriu o mercado para a entrada de novas empresas, tanto de transporte regular quanto de transporte não regular, incluindo regionais e cargueiras, as quais passaram de 17, em 1991, para um total de 41. Mas o caos se estabeleceu. Quem liga pra ele, se as promoções continuam?

Source:
Estado de São Paulo Estolamos by MARCELO RUBENS PAIVA

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